Traição/infidelidade emocional – O que é?

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Muitos acreditam que traição seja apenas o ato carnal – isto é, para um ato poder ser considerado traição precisa haver sexo, ou, no mínimo, uma troca de beijos. Afinal, se não houver contato com a pele da outra pessoa, nunca aconteceu nada, certo?

Será mesmo?

A verdade é que o conceito de traição é um pouco mais complicado do que isso, e há sim um tipo de traição onde você não precisa estar na cama de um motel ou em um canto de boate roubando um beijo – e ela é tão perigosa (e possivelmente até mais) do que a traição física.

Vamos começar falando sobre o conceito de traição. O que exatamente é uma traição?

Traição é qualquer coisa que fazemos às escondidas e que sabemos muito bem que estamos errados. São atos que não queremos que os outros (sejam eles amigos, colegas de trabalho ou parceiros) façam com a gente, mas que fazemos com eles. Então, a traição é sempre feita às escondidas – afinal, se não houvesse nada de errado em fazer isso ou aquilo, por que esconder? Por mais que às vezes não nos seja conveniente admitir para nós mesmos que estamos fazendo algo de errado, uma coisa é fato: se escondemos, é porque, no fundo no fundo sabemos que algo “fora do contrato” está acontecendo.

“Fora do contrato” é o termo certo. Imagine a seguinte situação: João e Maria têm um relacionamento aberto, onde eles concordaram que podem beijar outras pessoas. Um beijo em uma terceira pessoa aqui, no caso deles, não é uma traição, já que isso foi conversado e ambos aceitaram a “cláusula”.

Por outro lado, uma traição pode acontecer até entre amigos. Se Maurício e Fernando entraram em acordo de que nunca mais falariam com Inácio, e Fernando está mandando mensagens para Inácio às escondidas, isso é uma traição.

Agora, com o conceito de traição bem explicado, podemos começar a falar da traição emocional:

A traição emocional (ou afetiva) é quando passamos a colocar muita energia em uma pessoa que não é o nosso parceiro. Por mais que não tenhamos beijado ou trocado carícias, há uma criação de um vínculo emocional forte com essa terceira pessoa, trazendo um grande risco para o nosso relacionamento amoroso. Apesar de vocês se designarem “apenas amigos”, você tem absoluta certeza de que o seu parceiro ou parceira não ficaria contente em ver a interação entre vocês dois, por mais que você não consiga bem explicar o motivo.

Grande parte dos relacionamentos extraconjugais começam com uma amizade que cresceu além dos limites. Gostamos de pensar que a maioria das traições acontecem do nada com um estranho, mas isso não é verdade. Apesar de traições com pessoas desconhecidas de bar/festa existirem, muitas também começam com o famoso “somos apenas amigos” – e essas geralmente são as mais devastadoras para um relacionamento e as mais difíceis de haver reconciliação, já que há um envolvimento não somente físico, mas também um envolvimento emocional, deixando a relação extraconjugal muito mais forte (e com grandes possibilidades de continuação por longo tempo) do que com um estranho.

Sendo assim, vamos para alguns sinais de traição emocional:

7 Sinais que você pode estar traindo emocionalmente seu parceiro(a):

1- É apenas uma amizade, mas você esconde detalhes das interações com o seu amigo:
Você mente quando está apenas com ele, mente sobre o tempo gasto com ele, sobre o que conversam e/ou esconde conversas que estão no celular.

Como mencionado antes, se fosse apenas uma amizade, você realmente estaria agindo como se estivesse fazendo algo errado? Pense nisso.

2- O interesse por seu parceiro declina, tanto física quanto emocionalmente, enquanto há uma grande interação com a terceira pessoa:
Seu amigo começa a ser a principal pessoa para quem você conta as novidades e vira seu confidente. Ao mesmo tempo, em casa, você lentamente começa a se irritar mais com o parceiro, evita carinhos e conversas.

É importante lembrar que, por mais que gostemos de acreditar que afeto é ilimitado, a verdade é que não é. Imagine a seguinte situação: Você ganhou um carro. Você liga para a pessoa mais importante primeiro para contar a novidade. A notícia está fresca, então a animação é grande. Para a segunda pessoa, a animação já não está lá tão grande, mas ainda existe. Na décima pessoa, já quase não há animação. Sendo assim, a primeira pessoa para quem você conta qualquer coisa passa a receber o melhor das suas emoções. Se você está sempre desabafando e também contando as novidades para o seu amigo, haverá uma necessidade menor de conversar com o seu parceiro, assim enfraquecendo o vínculo entre vocês dois e ao mesmo tempo fortalecendo o vínculo extraconjugal. Quando você deixa de dar bom dia para o seu parceiro para dar primeiro para o seu amigo, você está com problemas.

3- Seu relacionamento vira assunto de conversa entre vocês:
Quando você começa a falar sobre problemas no seu relacionamento para essa terceira pessoa, você não somente está desrespeitando o seu parceiro, como também pode estar indicando inconscientemente (ou conscientemente) que o relacionamento está instável e pode acabar, deixando portas abertas para uma nova pessoa.

4- Você faz comparações, e tem de dizer a si mesmo que vocês são apenas amigos:
Quando você começa a comparar o seu parceiro com a terceira pessoa e tem de se forçar a pensar que não há nada além de amizade, é porque há algo além de amizade.

5- Existem segredos:
Você começa a contar segredos que nem o seu parceiro sabe. Segredos criam vínculos poderosos, e são poderosos combustíveis para um relacionamento extraconjugal.

6- Ansiedade:
Existe uma ansiedade quando você está para se encontrar com essa pessoa. Se você sente todas as emoções de um primeiro encontro quando vai se encontrar com esse amigo, você já está envolvido(a) demais.

7- Há ciúmes e necessidade de interação:
Você fica com ciúmes dessa terceira pessoa, especialmente quando ela fala com parceiros (caso esteja em um relacionamento) ou com parceiros em potencial. Além disso, há uma necessidade de estar sempre em contato com o “amigo” ou “amiga”.

E o que fazer caso você se encontre nessa situação? Como contornar?

1- Corte os vínculos com o “amigo”:
O ideal é que você pare completamente de falar com a pessoa, assim como em um caso de traição física. Caso você não possa cortar completamente, como em situações de trabalho, tenha em mente o que está acontecendo e mantenha o nível profissional. Pare de fazer o “amigo” de confidente.

2- Comunique-se com o seu parceiro:
Tenha em mente que você depositou uma enorme energia emocional em uma terceira pessoa. Volte a comunicar-se com o seu parceiro sobre o seu dia a dia, sobre seus sonhos, seus problemas, tudo. Lembre-se que namorar e encantar o seu parceiro é uma tarefa diária. Volte para aquele comecinho de relacionamento, quando vocês ainda estavam se conhecendo, e contavam tudo um para o outro. Saia mais com o seu parceiro(a), de preferência pelo menos uma vez por semana – transforme isso em uma rotina (no bom sentido). Caso haja algum conflito, comunique com o seu parceiro e/ou com um terapeuta. O problema do relacionamento deve ficar dentro do relacionamento.

3- Lembre-se que o seu “amigo” é perfeito porque você não está com ele ou ela:
Quando não conhecemos alguém direito, não vemos os seus defeitos. Isso acontece no começo de qualquer relacionamento, e com o passar do tempo vemos o nosso parceiro de forma mais humana, com seus pontos positivos e negativos. Cuidado com a idealização do desconhecido, por mais que pareça conhecido.

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Tentado a trair? Pare e pense antes

Não estou aqui para julgar ninguém. Todos sabemos que traição não é a melhor decisão do mundo. O texto que escrevi anteriormente me fez querer focar esse texto em algo que vejo repetidamente na clínica: A traição, e como você pode estar enganando não apenas o seu parceiro, mas você também.

No texto anterior tratei de paixão dentro do relacionamento oficial, e como ele declina com o tempo, o que é natural, e citei as causas. Também mencionei que é justamente quando essa paixão sofre uma queda que a traição pode vir a ocorrer. No entanto, os parceiros que traem nem sempre estão muito cientes do que está ocorrendo com eles mesmos, e como a paixão pode enganar uma pessoa.

Vamos por partes:

A maioria das pessoas que traem não amam as pessoas com quem elas tem um caso. Falei sobre o mistério de uma pessoa nova no post anterior, e também de como toda essa situação de “amor” proibido causa uma liberação de neurotransmissores (dopamina). E também falei sobre a idealização de um ser que a gente não tem ou conhece por completo. Pois é, tudo cabe aqui. O que vejo muito é que as pessoas estão apaixonadas não pela pessoa com quem elas estão tendo um caso, mas sim com uma figura idealizada dessa. Toda pessoa nova traz sentimentos fortes que fazem com que pensemos que ela que é o amor da nossa vida. Com o tempo, alguns pulam para um outro caso, porque viram que não é aquilo que estão procurando, somente para cair em outro jogo com o desconhecido, que libera novas sensações fortes, e por aí vai.

Além da idealização, há uma questão de alimentar o “ego”, já que a outra pessoa também te idealiza, então toda essa atenção faz a gente se sentir especial. A maioria das pessoas que entram em uma relação extraconjugal se sentem especiais (afinal, para que um caso com alguém para se sentir menos especial?), e sentem que estão recebendo mais atenção.

O que eu quero dizer com tudo isso é que a maioria das pessoas que acabam tendo um relacionamento extraconjugal não estão amando a nova pessoa, mas sim o que está ocorrendo com elas mesmas. Muitas vezes é uma questão interna, de validação e autoestima. Portanto, antes de ceder às tentações, ou até mesmo caso já esteja em uma relação fora do casamento, considere em consertar o relacionamento por terapia individual ou de casal.

Paula Monteiro
Psicóloga Clínica
psicologapaulamonteiro @ gmail.com
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Amor, paixão e romance

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Já escrevi aqui sobre como nós mudamos conforme o relacionamento caminha, e como começamos a desvalorizar as pequenas coisas. No entanto, gostaria de aprofundar esse tópico, agora fazendo uma comparação entre amor, paixão e o romance.

Quando nos apaixonamos por alguém, muitas vezes dizemos que foi “amor à primeira vista”. Eu diria que foi paixão à primeira vista, e que, com sorte, virou ou poderá virar um amor.

Aquele êxtase que sentimos quando nos apaixonamos, por mais que sonhemos que com a pessoa certa será eterno, não será. Não estou falando dos sentimentos amorosos, mas sim daquela paixão forte, que derruba a gente como uma onda gigante. Essa onda, inevitavelmente irá diminuir. Pode não quebrar e sumir, mas com toda certeza diminuirá.

Aí você me pergunta: Mas por quê? Por que o romance sempre diminui com o tempo? O romance CONSUMIDO sempre diminui com o tempo porque o “barato”, aquela sensação forte que sentimos é dada pela incerteza da continuidade desse romance e pelo fato de o seu “objeto de adoração” ser ainda não completamente conhecido. Curiosamente, a única forma de manter um romance tão forte eternamente é em um amor não-correspondido, seja a pessoa próxima ou até mesmo um ídolo/celebridade.

“If only the strength of the love that people feel when it’s reciprocated could be as intense and obsessive as the love that we feel when it’s not, then marriages would be truly made in heaven” – Ben Elton

(Tradução não-literal: Se a força de um amor que as pessoas sentem quando é correspondido fosse tão intenso e obsessivo quanto um amor que sentimos quando não é, casamentos seriam perfeitos)

Infelizmente, conforme conhecemos nosso parceiro, isto é, o romance vai sendo consumado, nosso êxtase diminui. Deixamos de ver nosso parceiro como uma pessoa perfeita, idealizada, e passamos a vê-lo como uma… pessoa. Quando a “caça” cessa, e o relacionamento se torna estável, tudo muda, incluindo os hormônios. A “onda” da dopamina cede e abre espaço pra ocitocina, agora sim, o hormônio do amor. Os laços se tornam reais e não idealizados. A paixão ardente se torna um lugar seguro e confortável (quando o relacionamento é saudável, claro)… Mas infelizmente nem todos nós conseguimos ver essa mudança como algo positivo, e por motivos óbvios: além dos sentimentos de êxtase de um “amor” novo serem muito bons, a mídia retrata desde sempre paixão como amor.

Vamos voltar um pouco no tempo: No romantismo, como era retratado o “amor”? A mulher era um objeto idealizado, distante. Pense em Romeu e Julieta; o amor deles era amor adolescente, com muitas barreiras, e nunca puderam realmente viver uma vida em casal. Com toda certeza, a história seria diferente se eles tivessem se casado e a história seguisse por mais dez anos.

E nos filmes de hoje? E nas séries? O que podemos ver de “amor”? Geralmente é o encontro de duas pessoas, elas se conhecem e geralmente os filmes terminam em o quê? Em casamento, que seria a conclusão desse período de êxtase, de mistérios, surpresas, de inseguridade e de idealização. Há uma clara desvalorização e confusão sobre o tema amor. As pessoas acreditam que o êxtase durará para sempre, e que esse êxtase (ou as famosas borboletas no estômago) é o maior sinal de amor.

Então, o que acontece na vida real por causa desses exemplos tão não realistas de amor? Quando a paixão cessa e o amor de verdade, que a vida real em dois, se instala e se estabiliza, muitas pessoas acreditam que o relacionamento está morrendo, ou que até o parceiro perdeu o interesse. É nesse momento que o perigo de uma traição mais aparece, justamente porque uma pessoa nova sempre trará mais êxtase (novamente, temporário) que um parceiro atual, por ser uma pessoa não completamente conhecida, um ambiente em que o amor é proibido (adultério).

Em textos futuros falarei sobre como trazer o fator surpresa de volta ao relacionamento. Mas isso não é a cura para a idealização do amor, é apenas uma ajuda dar uma sacudida na “rotina”. A cura é ver que por mais que o romance e a paixão sejam maravilhosos, eles são efêmeros, e que se você estiver com a pessoa certa, o amor verdadeiro é muito bom também, e duradouro.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
psicologapaulamonteiro @ gmail.com
(21) 99742-7750

Traição: Quando perdoar?

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Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, e quais são seus limites. Se você não aceita nenhuma traição e quer sair do relacionamento, esse texto não é para você. Estou escrevendo para quem se pergunta se realmente vale a pena dar uma (ou mais uma) chance.

O mais grave da traição não é o ato sexual, mas sim a quebra de confiança que a traição causa. Muitas vezes essa quebra de confiança não consegue ser ultrapassada, e o término acontece. Só amor não é o suficiente para manter um relacionamento, precisa haver confiança. Confiança é a cola do relacionamento.

Relacionamentos envolvem promessas: promessa de que você está com uma pessoa e mais nenhuma outra (no caso dos relacionamentos fechados). Quando essa promessa é quebrada, a confiança se desintegra. Sem confiança, a intimidade e a comunicação acabam. O casal acaba se distanciando. Hostilidade toma o lugar do carinho, e o relacionamento aos poucos se torna tóxico, e pode vir a acabar. Porém, se ambas as partes quiserem, a reconstrução do relacionamento PODE ser atingida, especialmente com a ajuda de terapia, que, nesse caso, se vê muito necessária. A terapia ajuda trabalhando nos problemas de comunicação, na confiança quebrada, na mágoa e na raiva causadas pela traição.

Para a reconstrução de um relacionamento, todas as cartas devem ser postas na mesa. Traição é um problema do casal, não de somente uma das partes. A verdade deve ser dita, por ambas as partes. Quem traiu não deve esconder o que fez, o motivo que levou a fazer isso (isto é, o que lhe falta no relacionamento) e aceitar sua culpa, assim como quem foi traído deve dizer o que precisa para sua confiança no parceiro voltar. A confiança não irá voltar facilmente, nem deve. O parceiro traído foi manipulado e escutou mentiras. A confiança deixa de ser garantida e cega para ser ganha, aos poucos; é um processo lento, que requer trabalho e dedicação.

Mas, quando é que todo esse esforço é realmente necessário? As chances de um casal ficar bem após uma traição são razoáveis, com o esforço de ambos, caso estejam interessados. Mas o que falar de múltiplas traições? E de traições que foram descobertas pelo parceiro, e não admitidas pelo outro? O ponto que quero chegar aqui é que vejo muitas vezes no consultório situações em que a “vítima” se cega para a realidade. O amor realmente cega às vezes. Qual é a responsabilidade da vítima numa situação assim? Uma das coisas mais difíceis de se fazer é olhar para si mesmo e ver qual parcela de culpa temos por nos colocar nas situações que acontecem conosco. Será que o parceiro nunca mostrou nenhum sinal infidelidade antes ou nós é que tampamos nossos olhos até o último instante? O que essa situação toda diz sobre nós mesmos? O que faz nós irmos ao consultório para “nos consertar”, para aceitarmos uma relação de monogamia repetidamente desrespeitada? O que nos impede de olhar para fora da relação e ver uma nova vida? É o medo de ficar sozinha(o)? É por causa do “bem” da família? É a incerteza do futuro? Essas são perguntas importantes que devem ser respondidas antes de dar mais uma chance a parceiros que traem repetidamente. A habilidade de perdoar é algo louvável, mas nem sempre é a solução.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
psicologapaulamonteiro @ gmail.com
(21) 99742-7750