Contos de fadas na vida real quase sempre dão errado

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(fonte:Wikipedia)

Nós, mulheres, crescemos com a ideia de sermos princesas. A Disney tem várias princesas, e para todos os gostos. Pais chamam filhas de “princesinhas”, e vemos vestidos bufantes rosa com coroas à venda em todas as lojas de roupas, brinquedos e acessórios para crianças. Uma menina bonita é sempre uma “princesa”. A maioria das princesas das histórias infantis (as mais tradicionais, pelo menos – um grande salve às histórias em que isso é diferente) tem um príncipe que a salva de todos os problemas e eles então vivem juntos, felizes para sempre. E esse é o final da história: O príncipe encontra e luta pela princesa, que estava esperando passivamente por ele, e eles se casam. A princesa, nas entrelinhas, tem o seu sonho realizado: um príncipe – ela não precisa de mais nada.

Esse bombardeio de princesas cria em muitas mulheres a ideia de que ter um marido é o objetivo final da vida. Nada mais importa. O foco é arranjar um marido, e ele é tudo o que você precisa para ser feliz, porque ele vai resolver absolutamente todos os seus problemas. Não preciso dizer aqui o quão isso está errado e o quanto esse pensamento é maléfico (para ambas as partes, aliás). Então, vamos direto aos principais motivos de isso ser tão ruim para você, seu (futuro ou atual) parceiro e o seu relacionamento:

Papéis rígidos em um relacionamento são desgastantes e levam à decepção: Tanto para homens quanto para mulheres. Ser uma princesa encantadora o tempo todo é difícil, e ser o príncipe corajoso que tem que fazer absolutamente tudo também é. Quando você põe tudo nas costas de seu parceiro, ele fica exausto, e quando você espera demais, está pedindo para se deprimir e se decepcionar com o seu parceiro.

Ser a princesa pára o seu crescimento: Meninas que focam apenas em serem delicadas e femininas, tendo como objetivo final serem adoradas acabam perdendo poder no mundo. Mulheres que focam apenas em objetivos românticos tendem a ser menos interessadas em carreiras na área da matemática e ciências. Mulheres que não colocam seus valores em nenhuma outra área senão no relacionamento têm menor autoestima e se deprimem mais facilmente do que mulheres que têm diversos interesses.

Mulheres que procuram príncipes podem achar príncipes não-tão-encantados: Se o seu parceiro quer completa feminilidade e delicadeza, ele não quer assertividade (isto é, mulheres independentes que podem tomar suas próprias decisões). Ser “princesa” pode lhe custar caro, como não ter suas opiniões e decisões respeitadas.

Estar em um pedestal e ser vista como uma delicada flor pode fazer você sofrer “machismo benevolente” pelo seu parceiro. Ter um príncipe encantado que te protege de tudo tem o seu ponto negativo: Ele é quem toma as decisões (tudo tem o seu lado negativo – lembre-se: se algo parece bom demais para ser verdade, é porque provavelmente é). Não estou dizendo que necessariamente terá uma pessoa ao seu lado assim, mas você abre mais oportunidades para parceiros dominadores desse tipo.

Resumindo: Um relacionamento de conto de fadas é exaustivo para ambas as partes. Demanda demais do homem e a mulher perde seu valor (e ainda mais com o tempo). Tenha um relacionamento saudável, com expectativas realistas e equilíbrio nas decisões do casal. Além disso, não seja uma princesa. Seja uma guerreira. Vá, e conquiste o seu mundo.

Paula Monteiro
Psicóloga Clínica
psicologapaulamonteiro@gmail.com
(21) 99742-7750

Compulsão à Repetição

Por que algumas pessoas escolhem parceiros iguais aos parceiros que tiveram no passado, se estes eram abusivos, alcoólatras, narcisistas, etc? Não faria mais sentido procurar um relacionamento mais saudável, procurando parceiros talvez até com traços extremamente opostos?

Esse fenômeno psicológico de repetição tem o nome de “compulsão à repetição”. A pessoa repete o evento traumático ou suas circunstâncias, onde o evento poderia ocorrer novamente.

A origem do trauma não necessariamente é um relacionamento amoroso; pode vir de outras fontes, como, por exemplo, pais abusivos. A questão é: Independente da fonte, por que repetir uma situação ruim?

Primeiramente, a maioria das pessoas que comete essa repetição não percebe que há uma repetição, e se percebem, na maioria das vezes não identificam a origem. Inconscientemente, a pessoa repete a situação original tentando mudar o resultado. Vou dar um exemplo: Uma moça que o pai era sempre ausente na infância entra repetidamente em relacionamentos com homens ausentes, tentando agradá-los cada vez mais para obter a atenção que tanto deseja.

Além disso, nós humanos somo seres de hábitos; isto é, procuramos o que conhecemos. Logo, uma pessoa pode estar tão acostumada a um certo tipo de situação ruim, que tudo naquele ambiente é previsível, enquanto um relacionamento diferente, completamente novo, pode parecer assustador (por mais que seja mais saudável), porque essa pessoa não viveu nada parecido com aquilo. Todos sabemos o quão assustador o desconhecido pode ser.

A relação terapêutica explora as raízes dos traumas e as consequências na vida atual do paciente, tentando eliminar esse padrão repetitivo.

Paula Monteiro
Psicóloga Clínica
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Tentado a trair? Pare e pense antes

Não estou aqui para julgar ninguém. Todos sabemos que traição não é a melhor decisão do mundo. O texto que escrevi anteriormente me fez querer focar esse texto em algo que vejo repetidamente na clínica: A traição, e como você pode estar enganando não apenas o seu parceiro, mas você também.

No texto anterior tratei de paixão dentro do relacionamento oficial, e como ele declina com o tempo, o que é natural, e citei as causas. Também mencionei que é justamente quando essa paixão sofre uma queda que a traição pode vir a ocorrer. No entanto, os parceiros que traem nem sempre estão muito cientes do que está ocorrendo com eles mesmos, e como a paixão pode enganar uma pessoa.

Vamos por partes:

A maioria das pessoas que traem não amam as pessoas com quem elas tem um caso. Falei sobre o mistério de uma pessoa nova no post anterior, e também de como toda essa situação de “amor” proibido causa uma liberação de neurotransmissores (dopamina). E também falei sobre a idealização de um ser que a gente não tem ou conhece por completo. Pois é, tudo cabe aqui. O que vejo muito é que as pessoas estão apaixonadas não pela pessoa com quem elas estão tendo um caso, mas sim com uma figura idealizada dessa. Toda pessoa nova traz sentimentos fortes que fazem com que pensemos que ela que é o amor da nossa vida. Com o tempo, alguns pulam para um outro caso, porque viram que não é aquilo que estão procurando, somente para cair em outro jogo com o desconhecido, que libera novas sensações fortes, e por aí vai.

Além da idealização, há uma questão de alimentar o “ego”, já que a outra pessoa também te idealiza, então toda essa atenção faz a gente se sentir especial. A maioria das pessoas que entram em uma relação extraconjugal se sentem especiais (afinal, para que um caso com alguém para se sentir menos especial?), e sentem que estão recebendo mais atenção.

O que eu quero dizer com tudo isso é que a maioria das pessoas que acabam tendo um relacionamento extraconjugal não estão amando a nova pessoa, mas sim o que está ocorrendo com elas mesmas. Muitas vezes é uma questão interna, de validação e autoestima. Portanto, antes de ceder às tentações, ou até mesmo caso já esteja em uma relação fora do casamento, considere em consertar o relacionamento por terapia individual ou de casal.

Paula Monteiro
Psicóloga Clínica
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Amor, paixão e romance

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Já escrevi aqui sobre como nós mudamos conforme o relacionamento caminha, e como começamos a desvalorizar as pequenas coisas. No entanto, gostaria de aprofundar esse tópico, agora fazendo uma comparação entre amor, paixão e o romance.

Quando nos apaixonamos por alguém, muitas vezes dizemos que foi “amor à primeira vista”. Eu diria que foi paixão à primeira vista, e que, com sorte, virou ou poderá virar um amor.

Aquele êxtase que sentimos quando nos apaixonamos, por mais que sonhemos que com a pessoa certa será eterno, não será. Não estou falando dos sentimentos amorosos, mas sim daquela paixão forte, que derruba a gente como uma onda gigante. Essa onda, inevitavelmente irá diminuir. Pode não quebrar e sumir, mas com toda certeza diminuirá.

Aí você me pergunta: Mas por quê? Por que o romance sempre diminui com o tempo? O romance CONSUMIDO sempre diminui com o tempo porque o “barato”, aquela sensação forte que sentimos é dada pela incerteza da continuidade desse romance e pelo fato de o seu “objeto de adoração” ser ainda não completamente conhecido. Curiosamente, a única forma de manter um romance tão forte eternamente é em um amor não-correspondido, seja a pessoa próxima ou até mesmo um ídolo/celebridade.

“If only the strength of the love that people feel when it’s reciprocated could be as intense and obsessive as the love that we feel when it’s not, then marriages would be truly made in heaven” – Ben Elton

(Tradução não-literal: Se a força de um amor que as pessoas sentem quando é correspondido fosse tão intenso e obsessivo quanto um amor que sentimos quando não é, casamentos seriam perfeitos)

Infelizmente, conforme conhecemos nosso parceiro, isto é, o romance vai sendo consumado, nosso êxtase diminui. Deixamos de ver nosso parceiro como uma pessoa perfeita, idealizada, e passamos a vê-lo como uma… pessoa. Quando a “caça” cessa, e o relacionamento se torna estável, tudo muda, incluindo os hormônios. A “onda” da dopamina cede e abre espaço pra ocitocina, agora sim, o hormônio do amor. Os laços se tornam reais e não idealizados. A paixão ardente se torna um lugar seguro e confortável (quando o relacionamento é saudável, claro)… Mas infelizmente nem todos nós conseguimos ver essa mudança como algo positivo, e por motivos óbvios: além dos sentimentos de êxtase de um “amor” novo serem muito bons, a mídia retrata desde sempre paixão como amor.

Vamos voltar um pouco no tempo: No romantismo, como era retratado o “amor”? A mulher era um objeto idealizado, distante. Pense em Romeu e Julieta; o amor deles era amor adolescente, com muitas barreiras, e nunca puderam realmente viver uma vida em casal. Com toda certeza, a história seria diferente se eles tivessem se casado e a história seguisse por mais dez anos.

E nos filmes de hoje? E nas séries? O que podemos ver de “amor”? Geralmente é o encontro de duas pessoas, elas se conhecem e geralmente os filmes terminam em o quê? Em casamento, que seria a conclusão desse período de êxtase, de mistérios, surpresas, de inseguridade e de idealização. Há uma clara desvalorização e confusão sobre o tema amor. As pessoas acreditam que o êxtase durará para sempre, e que esse êxtase (ou as famosas borboletas no estômago) é o maior sinal de amor.

Então, o que acontece na vida real por causa desses exemplos tão não realistas de amor? Quando a paixão cessa e o amor de verdade, que a vida real em dois, se instala e se estabiliza, muitas pessoas acreditam que o relacionamento está morrendo, ou que até o parceiro perdeu o interesse. É nesse momento que o perigo de uma traição mais aparece, justamente porque uma pessoa nova sempre trará mais êxtase (novamente, temporário) que um parceiro atual, por ser uma pessoa não completamente conhecida, um ambiente em que o amor é proibido (adultério).

Em textos futuros falarei sobre como trazer o fator surpresa de volta ao relacionamento. Mas isso não é a cura para a idealização do amor, é apenas uma ajuda dar uma sacudida na “rotina”. A cura é ver que por mais que o romance e a paixão sejam maravilhosos, eles são efêmeros, e que se você estiver com a pessoa certa, o amor verdadeiro é muito bom também, e duradouro.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
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Alguns mitos sobre relacionamentos

Casais felizes não discutem:
TODOS os casais discutem em algum momento. A diferença é na quantidade e na qualidade. O que eu quero dizer por qualidade da discussão é o quanto eles estão tentando consertar. Uma discussão construtiva faz com que o casal cresça junto e siga algo em que ambos concordam. Uma discussão tóxica não resulta em nada, e os parceiros, ao invés de tentarem consertar, tentam atingir um ao outro ou chegam a uma decisão que é injusta a uma das partes. Casais em bons relacionamentos tendem a discutir menos com o tempo, porque já entraram em acordo sobre vários assuntos.

Você tem que amar tudo o que seu parceiro faz:
Me desculpe, mas seu parceiro não é perfeito, e nem você. Haverão sempre algumas coisas pequenas (e lidáveis) que teremos que aprender a ignorar.

Não reclame do que você não gosta no começo do relacionamento:
O começo do relacionamento vai moldando como vai ser a dinâmica do casal. Vamos dizer que você não gosta que seu parceiro apareça no seu trabalho sem te avisar antes. Se você não reclamar nas primeiras vezes, ele vai achar que esse comportamento é aceitável e irá continuar fazendo, gerando mais frustração para você. Fale o que não gosta, de um jeito educado. É crítica construtiva.

Casais que são para dar certo simplesmente irão dar certo. Bons relacionamentos não dão trabalho.
Qualquer relacionamento requer pelo menos um pouco de esforço de ambos os lados. Deixar que ‘o destino’ cuide é uma furada. Entrar em um relacionamento é combinar todos os desejos e sonhos de ambas as partes, e obviamente, isso é bem complicado. Nada é perfeito, e nada vem sem esforço. Mas, claro, se o relacionamento estiver dando mais trabalho do que alegria, é necessário ver se o relacionamento vale a pena.

Casais felizes fazem muito sexo ou fazem pelo menos (insira número aqui) vezes
A frequência que um casal faz sexo depende da libido do casal, das circunstâncias e da oportunidade. Comparar a sua vida sexual com seus amigos não é uma boa forma de medir a sua satisfação sexual ou do seu parceiro. Caso esteja incomodado, converse com seu parceiro, não com pessoas fora da relação. Além disso, obviamente, a quantidade de vezes tende a diminuir com o tempo, já que o fator da novidade já desapareceu. No entanto, o que importa aqui não é a quantidade, e sim a QUALIDADE.

Um bebê vai solucionar todas as brigas do casal
Só se for porque eles estão cansados demais para brigar. Um bebê é uma grande responsabilidade, toma muito tempo (e dinheiro do casal). Satisfação dentro de um relacionamento quase sempre cai depois do nascimento do primeiro filho. Claro, ter um filho é muito bom (para os casais que desejam), mas se o casal está com problemas sem filhos, melhor resolvê-los antes de abrir a fábrica.

Casais felizes fazem tudo juntos
Você não é uma extensão do seu parceiro. Vocês são duas pessoas distintas, e justamente por terem alguns interesses diferentes que podem trocar experiências e assim se tornam interessantes. Atividades tanto juntos quanto separados são importantíssimas.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
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Detalhes fazem toda a diferença

Quando entramos em um relacionamento, tudo é lindo e encantador. Todos os detalhes positivos do parceiro são vistos com uma lente de aumento, e os defeitos são diminuídos ou até vistos como “charme”. Notamos todas as atitudes boas, como o café da manhã que ele faz e traz na cama aos domingos, como ele traz um doce toda semana para você depois do trabalho ou como ele conserta o seu computador sempre que você precisa. Ou como ela passou o seu terno que você precisava para a reunião, ou como faz um jantar especial todas às sextas-feiras, quando você volta exausto do trabalho. Você além de notar, menciona e agradece.

Após algum tempo, os detalhes negativos da pessoa começam a ter importância, e os positivos começam a perder o poder. Aquele esquecimento dele que antes era fofo começa a ser irritante, e o jeito que ela se atrasa sempre deixa de ser charme, e vira motivo de briga. Por que as coisas se invertem dessa maneira?

A verdade é que nos acostumamos facilmente com o que é bom (culpemos nosso cérebro!). Com o tempo, aquele café da manhã aos domingos vira tão normal quanto domingão do faustão, e deixamos de agradecer, até porque nós mesmos não vemos mais aquilo como tão especial. Em compensação, sabemos o quão difícil é se acostumar com algo ruim, e com a mágica de um relacionamento novo já meio que apagada, esses detalhes negativos começam a sobressair. Ambos os lados ficam irritados e começam a pensar que estão sendo desvalorizados.

Mas o que fazer para reverter esse problema? Tente adicionar um pouco de gratidão “não-automática” na relação: Pare e veja as qualidades de seu parceiro. Comente. Você verá que não somente seu parceiro se sentirá mais valorizado, feliz e irá retribuir o gesto, como você mesmo ficará mais satisfeito na relação.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
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Traição: Quando perdoar?

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Não estou aqui para dizer o que é certo ou errado, e quais são seus limites. Se você não aceita nenhuma traição e quer sair do relacionamento, esse texto não é para você. Estou escrevendo para quem se pergunta se realmente vale a pena dar uma (ou mais uma) chance.

O mais grave da traição não é o ato sexual, mas sim a quebra de confiança que a traição causa. Muitas vezes essa quebra de confiança não consegue ser ultrapassada, e o término acontece. Só amor não é o suficiente para manter um relacionamento, precisa haver confiança. Confiança é a cola do relacionamento.

Relacionamentos envolvem promessas: promessa de que você está com uma pessoa e mais nenhuma outra (no caso dos relacionamentos fechados). Quando essa promessa é quebrada, a confiança se desintegra. Sem confiança, a intimidade e a comunicação acabam. O casal acaba se distanciando. Hostilidade toma o lugar do carinho, e o relacionamento aos poucos se torna tóxico, e pode vir a acabar. Porém, se ambas as partes quiserem, a reconstrução do relacionamento PODE ser atingida, especialmente com a ajuda de terapia, que, nesse caso, se vê muito necessária. A terapia ajuda trabalhando nos problemas de comunicação, na confiança quebrada, na mágoa e na raiva causadas pela traição.

Para a reconstrução de um relacionamento, todas as cartas devem ser postas na mesa. Traição é um problema do casal, não de somente uma das partes. A verdade deve ser dita, por ambas as partes. Quem traiu não deve esconder o que fez, o motivo que levou a fazer isso (isto é, o que lhe falta no relacionamento) e aceitar sua culpa, assim como quem foi traído deve dizer o que precisa para sua confiança no parceiro voltar. A confiança não irá voltar facilmente, nem deve. O parceiro traído foi manipulado e escutou mentiras. A confiança deixa de ser garantida e cega para ser ganha, aos poucos; é um processo lento, que requer trabalho e dedicação.

Mas, quando é que todo esse esforço é realmente necessário? As chances de um casal ficar bem após uma traição são razoáveis, com o esforço de ambos, caso estejam interessados. Mas o que falar de múltiplas traições? E de traições que foram descobertas pelo parceiro, e não admitidas pelo outro? O ponto que quero chegar aqui é que vejo muitas vezes no consultório situações em que a “vítima” se cega para a realidade. O amor realmente cega às vezes. Qual é a responsabilidade da vítima numa situação assim? Uma das coisas mais difíceis de se fazer é olhar para si mesmo e ver qual parcela de culpa temos por nos colocar nas situações que acontecem conosco. Será que o parceiro nunca mostrou nenhum sinal infidelidade antes ou nós é que tampamos nossos olhos até o último instante? O que essa situação toda diz sobre nós mesmos? O que faz nós irmos ao consultório para “nos consertar”, para aceitarmos uma relação de monogamia repetidamente desrespeitada? O que nos impede de olhar para fora da relação e ver uma nova vida? É o medo de ficar sozinha(o)? É por causa do “bem” da família? É a incerteza do futuro? Essas são perguntas importantes que devem ser respondidas antes de dar mais uma chance a parceiros que traem repetidamente. A habilidade de perdoar é algo louvável, mas nem sempre é a solução.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
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Ciúmes na relação

imagem:FreeDigitalPhotos.net
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Ciúme é um sentimento complexo, que é multi-dimensional, envolvendo raiva, ansiedade e medo. O ciúme tem suas raízes em você mesmo (variando de acordo com a sua história de vida), na cultura que você vive (o que se é esperado em uma cultura muitas vezes não é esperado na outra)  e na relação entre duas ou mais pessoas. Além disso, quando falamos de ciúmes, geralmente pensamos em algo negativo, trazendo a idéia de possessividade, controle e egoísmo.

Quando pensamos em ciúmes em um relacionamento, podemos adicionar a todos os adjetivos citados acima, conflitos e problemas no relacionamento. Muitas vezes esses problemas, levados ao nível máximo, podem causar crimes passionais, sendo a maioria causados por homens.

No entanto, a idéia de que ciúmes são sempre ruins é um pensamento equivocado. Na verdade, ciúme, na dose certa, é um indicativo de que a pessoa gosta do parceiro, e ajuda na manutenção dos laços amorosos. Ciúme é uma reação biológica, isto é, natural, que é observada em animais e em bebês. O ciúme varia em grau e em tipo. Podemos dizer que o ciúme em um relacionamento pode ser categorizado, no mínimo, em ciúme reativo e ciúme desconfiado.

O que quero dizer com isso? Pois bem, como eu disse antes, ciúme é uma reação natural, e que depende de uma série de fatores. O ciúme que chamo aqui de reativo acontece quando há uma real ameaça ao relacionamento. O ciúme então acontece por causa de “um estranho no ninho”. Isso não significa que a reação seja necessariamente adequada ou aceitável socialmente só porque há uma ameaça real. Há níveis e níveis de ciúme. Esse ciúme, portanto, é causado, pelo menos por parte, por um fator externo. Já o ciúme desconfiado é causado por fatores internos. Baixa auto-estima, entre outros fatores causados por eventos causados no passado (até possivelmente uma traição anterior), podem gerar insegurança.

Os dois ciúmes podem se entrelaçar ou um virar o outro. Por exemplo, uma pessoa com ciúme reativo que é traída pode começar a ter ciúme do tipo desconfiado depois da traição, e uma pessoa que tem ciúme desconfiado do parceiro, gerando comportamentos altamente neuróticos, pode destruir o relacionamento e fazer com que o parceiro perca o interesse no relacionamento, e consequentemente termine ou traia.
No final, o que importa é que sentimentos de ciúme e insegurança sempre são ruins, então devemos consertá-los. A forma de conserto é que difere nessa hora. Se você tem ciúme do tipo desconfiado, trabalhar em si mesmo, fazer terapia e aumentar sua auto-estima são pontos cruciais. Já no caso do ciúme reativo, comunicação entre os parceiros é a chave: Apesar de conversas sobre o tópico serem complicadas e muitas vezes evitadas, insegurança, segredos e omitir sentimentos não é uma base sólida para a um casal se manter. Comunicação é essencial para um relacionamento saudável.

Como você escolhe seu parceiro amoroso?

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Muitos de nós acreditamos em almas gêmeas; de que existe uma pessoa em especial que é perfeita para nós, em todos os sentidos. Mas a verdade é que a crença da alma gêmea pode estar te impedindo de ser feliz.

Primeiramente, sejamos realistas: se existe uma pessoa na Terra perfeita para você e a Terra tem aproximadamente 7 bilhões de pessoas, é bem provável que você não ache essa pessoa. Consegue imaginar passar por todas essas pessoas antes de achar o seu par ideal? Mesmo que você tenha uma preferência sexual por um gênero só, 3,5 bilhões ainda é coisa demais.

Shwartz e colaboradores (2012) notaram que há dois modos prevalentes de escolha de parceiro: satisfação e maximização.

A pessoa que procura pelo método de maximização procura encontrar a MELHOR pessoa possível e troca quando encontra alguém melhor que o parceiro atual. O tipo de pessoa que diz que só vai se casar com o melhor homem (ou mulher) da Terra. Essas pessoas procuram bastante e por um longo tempo, ganham bastante experiência, e não aceitam nada aquém do melhor.

Já a pessoa que procura pelo método de satisfação pensa nos pontos que ela julga necessário para um parceiro antes de começar a sua procura, e selecionam a primeira pessoa que se encaixa nesses critérios, ao invés de estar sempre procurando pelo melhor de todos, a busca inalcançável.

Apesar de nossa sociedade ser de fato maximizadora, afinal, queremos sempre o melhor em tudo, os estudos comparando os dois tipos de escolha mostra que pessoas que vão pelo método de maximização se encontram mais deprimidas, perfeccionistas e se arrependiam mais que as pessoas que procuravam pelo método de satisfação, que se encontravam bem mais otimistas, felizes com a vida e com boa auto-estima. Essas pessoas encontram o que querem e o que precisam, e estão satisfeitas com o que têm.

As pessoas que procuram pelo método de maximização acabam pulando de relacionamento em relacionamento, sempre procurando por algo melhor (ou simplesmente esperando por todo o sempre), e depois sofrendo as consequências por estar sempre correndo atrás da inatingível perfeição.

Portanto, o ideal é parar e pensar o que você precisa num parceiro para te deixar feliz e satisfeito e também o que é absolutamente inadmissível um parceiro ter como defeito e seguir com essa lista, e esqueça as opiniões alheias ou o que a mídia manda. Assim, você conseguirá achar um parceiro bom e parará de procurar a perfeição, que não existe.

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Término de amizade

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Todos passamos por um momento em que um amigo se afastou e a amizade deixou de existir. Sentimos tristeza, raiva e ciúmes, especialmente se o ex-amigo começou a andar com outra pessoa.

É curioso como, mesmo tendo esse vínculo todo com alguém (às vezes até maior que um vínculo amoroso), a quebra de uma amizade, no ponto de vista social, não é importante. Dizemos muitas vezes a nós mesmo que não deveria doer tanto. Ligue para alguém para chorar porque rompeu um relacionamento amoroso e receberá compaixão; o mesmo não é tido caso ligue para chorar por causa de uma perda de amizade. É algo cultural: filmes mostram o tempo inteiro o valor do amor romântico, e grande parte das músicas são sobre corações despedaçados ou amor romântico em geral. A amizade vem muito, mas muito atrás.

Apesar de perdas de amizades não incluem diminuição/perda de atividade sexual (pelo menos em geral), o sentimento primário é basicamente o mesmo: “Ele(a) não me quer mais”. Não importa o tipo de relacionamento, não ser mais desejado por alguém dói.

Voltando aos filmes e às idéias (que afetam demais a gente)… A maioria dos filmes passa a idéia de que amizades fortes são eternas. Agora pare e pense quantos ‘melhores amigos’ seus , desde a sua infância (ou desde quando apareceram na sua vida) permancem sendo seus melhores amigos? Quantos desses estão aí por décadas? Eles existem, mas com toda certeza não são os mais comuns.

A verdade é que amizades passam pelos mesmos problemas de relações amorosas: há desentendimentos, decepções, traições, e o efeito do tempo. O tempo faz com que mudemos, e nem sempre essa mudança bate com a mudança do(a) amigo(a), causando afastamento. Precisamos adicionar aqui que, além disso tudo, como a relação amorosa é tão mais valorizada que a de amizade, acabamos muitas vezes não dando o valor devido aos nossos amigos, o que também causa um distanciamento, que, muitas vezes, poderia ser evitado.

Portanto, em relação à amizades perdidas (e sem volta, pelo menos temporariamente) é o caso de aceitação: Aceitar que o tempo passa e que as situações e as pessoas mudam. E quanto às amizades de agora, dê a atenção que elas merecem, e evite perdas desnecessárias.