Paralisia do perfeccionismo

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Hoje decidi me abrir para vocês, e falar sobre um problema que me afetou bastante por um bom tempo, e que vejo que afeta muita, mas muita gente: a paralisia causada pelo perfeccionismo.

Eu estava com a ideia fazer de um podcast faz tempo, muito tempo mesmo, e a ideia ficou ainda mais forte durante a pandemia. No entanto, toda vez que eu sentava na cadeira para pensar em um tópico, eu acabava fazendo qualquer outra coisa que não fosse trabalhar nisso. E nisso, passaram-se muitos, mas muitos meses.

Sempre era alguma coisa no caminho: cursos, vídeos, livros que eu queria ler, séries, até dar uma volta rua estava valendo. E qual era o grande problema para mim? Produzir algo bom. Eu queria trazer para vocês um conteúdo de qualidade, eu queria que, seja lá qual fosse o tópico, eu pudesse ajudar vocês da melhor forma possível.

Só que essa “melhor forma possível” para mim, pelo menos inconscientemente, era algo que estava quase inalcançável. Na verdade, eu acho que estava inalcançável. E aí, vendo que o conteúdo que eu queria passar na qualidade que eu queria passar era inalcançável, eu procrastinava.

Eis algo interessante sobre a procrastinação. Muitas pessoas acham que a procrastinação só acontece quando não queremos fazer algo. Mas a verdade é que existe um tipo de procrastinação que acontece quando a gente realmente quer fazer algo, mas se sente incapaz. É o perfeccionismo nos paralisando, e não deixando dar os passos que a gente precisa dar.

Aliás, precisamos falar sobre o termo perfeccionismo. Perfeccionismo não é dar o seu melhor. Nós sempre temos que dar o nosso melhor. O perfeccionismo é um escudo contra julgamentos dos outros. É aquela ideia de que temos que fazer tudo absolutamente perfeito, pois assim não seremos afetados por críticas. E nisso, a gente tem dois problemas:

Primeiro que não existe perfeição, muito menos sem prática. Sempre haverá alguém para te criticar. E sempre haverá alguma maneira de melhorar também. E justamente porque sempre existe espaço para melhorar, se você está esperando a versão perfeita do seu produto ou seja lá o que for, você nunca vai lançar. O perfeito não existe, e essa ideia nos prende, nos paralisa.

Se você olhar para as pessoas de sucesso, sejam escritores, apresentadores, artistas, empresários, você vai ver que todos eles começaram de um ponto e cresceram a partir daí. E eu sei que é difícil colocar algo no mundo nesse momento, onde tudo parece perfeito no instagram e no facebook, mas acredite, tudo precisa de um começo. Pense o seguinte: se o seu artista favorito não tivesse se arriscado, ele não teria crescido na vida e não teria se transformado no seu artista favorito! Todas as pessoas que conseguiram sucesso erraram em algum momento, e se você não se permitir errar e crescer, você simplesmente não vai sair do lugar. Todo profissional começa como amador. Um escritor famoso não nasceu já escrevendo best sellers, tudo contou para esse escritor chegar onde está agora, inclusive seus textos que ainda escrevia no colégio, e até os textos que foram recusados por alguma editora. Tudo conta. Pense em progresso, não em perfeição.

Quanto mais você produz, mais você se desenvolve. Vou dar um exemplo: João pintou um quadro em um ano. E realmente, o quadro era muito bom (apesar de que talvez João não pensasse dessa forma). Ele demorou um ano inteiro porque toda vez que ele começava, ele não terminava, pois sempre tinha algum problema, tinha sempre algo errado, aí ele parava e recomeçava logo depois de começar. Já Luiz pintou dez quadros em um ano – e eram quadros bons também, talvez não tão bons quanto o quadro de João, mas muito bons.

E quem é que ganha nessa história? Luiz ganha nessa história. Por quê? Porque ao invés de congelar e não produzir, Luiz trabalhou nas suas artes e se desenvolveu muito mais que João no final das contas. Apesar de não ser inicialmente tão talentoso quando João, ele ganhou muito mais prática nesse um ano.

Então, gente, o que é que eu quero dizer com isso: vamos deixar essa procrastinação e esse medo de lado, e botar a mão na massa. Não é semana que vem, não é ano que vem, é agora. O seu futuro é agora. Não deixe sua autocrítica extrema te impedir e te sabotar de fazer o que você quer fazer.

E para quem quiser me ver (ou melhor, ouvir) pôr a mão na massa, a versão áudio desse texto se encontra aqui.

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Perfeccionismo, expectativas e depressão – você está se sabotando?

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Como terapeuta, acho que não preciso me esclarecer aqui sobre a seriedade da depressão e em como deve ser tratada na terapia e, dependendo do caso, também com medicamentos. No entanto, acho que vale a pena falar sobre pontos importantes que nós mesmos podemos refletir sozinhos, e um (de muitos) deles é o perfeccionismo. Será que o seu perfeccionismo e as suas expectativas em geral estão te sabotando?

Quando esperamos demais de nós mesmos, às vezes um simples hobby pode virar uma frustração. Tudo na vida envolve aprendizado e experiência, seja em sua profissão ou em um passa-tempo. Se você sempre desiste de algo na primeira tentativa ou na primeira falha, lembre-se que sempre haverá um momento onde você se sentirá inseguro sobre os seus talentos, seja lá no que for. Um chef de cozinha não aprendeu a fazer tudo o que faz da noite para o dia, e até mesmo os mais experientes chefs às vezes queimam um prato. Se você desistisse de todos os seus desafios na vida, não saberia amarrar os sapatos hoje em dia – coisa que você provavelmente faz com a mesma facilidade de escovar os dentes, outro ato que você teve de aprender, e provavelmente não foi tão fácil nas primeiras vezes.

A autocrítica pode nos roubar talentos ou diversões, levando muitas pessoas a se “divertirem” com atos que não lhe trazem nenhum benefício, como abuso de álcool ou drogas ilícitas. Outras podem esquecer da vida assistindo TV. Nada contra a telinha, mas quando isso é o seu meio de fuga da realidade e dos seus desafios, ela se torna um problema. Muitas pessoas aparecem no consultório com autocríticas extremas, que as pôs em uma prisão cognitiva – “não consigo fazer nada direito”, “não sou bom em nada”, eles dizem. Quem não tenta nada não se torna bom em nada, isso é fato. O caminho de todos nós é cheio de dificuldades, e, apesar de podermos desviar de alguns obstáculos, muitos deles são necessários.

Aliás, vale lembrar que o que estou falando aqui não se resume em “não desista de nada”. Às vezes algumas coisas e pessoas devem ser deixadas de lado. Desistir quando necessário é sadio e deve ser feito. Este texto é para as pessoas que desistem de tudo que não saia perfeito da primeira vez.

Por último, vale lembrar que a maioria dos perfeccionistas também esperam um bocado dos outros, criando ressentimento quando suas altas expectativas não se realizam. Novamente, é importante se lembrar dos processos e dos esforços dos outros, e não somente dos resultados. Isso não somente afeta os relacionamentos, mas também pode trazer várias formas de somatização. Internalizar esses sentimentos pode trazer depressão, dores de cabeça e ansiedade.

Se você acha que você se encaixa no perfil, tente parar e apreciar todo o processo, ao invés de apenas focar no resultado. Ao invés de desistir ou se irritar, pense em como melhorar seu desempenho, e lembre-se que tudo na vida precisa ser aprendido. Isso também vale para as pessoas com quem você se relaciona: pense no processo e no esforço delas, e não somente na expectativa. Todos nos decepcionamos às vezes, e é importante perdoar a si mesmo e aos outros.

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