Análise do filme Swallow (2019 / 2020)

SWALLOW

Swallow conta a história de Hunter, uma mulher que a grande maioria das pessoas julgaria ter uma vida “muito boa”. No entanto, isso é bem superficial. Conforme vamos assistindo o filme, percebemos que Hunter vive uma vida vazia e falsa: ela é constantemente ignorada pelo seu noivo e pela família dele, e dá para ver que aquele mundo (inclusive suas roupas) não é seu. Ela tenta se encaixar para ser amada, mas de nada adianta. Além disso, acredito que a questão da segurança financeira a segure no relacionamento com seu noivo ausente, pois ela não conseguiu nenhum emprego na área que queria e acabou trabalhando como vendedora até encontrar o rapaz.

Hunter logo descobre que está grávida. Conta ao noivo, que fica muito feliz, mas vemos que a própria Hunter não está feliz. Está fingindo felicidade quando necessário. Vemos isso até quando um dos colegas de trabalho de seu noivo lhe dá os parabéns, e ela não se liga no que ele está falando de imediato.

E é logo depois da descoberta dessa gravidez que as coisas começam a sair do controle para Hunter. Primeiramente, ela engole uma bola de gude. Depois, outros pequenos objetos são ingeridos conforme os dias passam. Nisso, parece que o humor de Hunter começa a melhorar um pouco toda vez que ela engole algo que não deveria.

Ao fazer um exame por conta da gravidez, descobre-se que tem uma pilha em seu corpo – o último objeto ingerido. Por conta disso, ela vai direto para a sala de cirurgia. Seu noivo fica extremamente irritado com toda a situação e a manda para uma psiquiatra, e todos os passos  de Hunter começam a ser vigiados por um enfermeiro contratado pela família dele.

Aos poucos, Hunter se abre para a terapeuta. Em um certo momento ela fala que engolir esses objetos lhe traz uma sensação de controle – coisa que obviamente falta em todo o resto de sua vida. Aliás, antes dos objetos, ela engolia muito desaforo e descaso. Em outra sessão, ela menciona que ela não é filha de seu pai, e que sua mãe foi estuprada. Por conta da origem conservadora, sua mãe decidiu manter a gravidez. Hunter diz que ainda assim ela é muito amada por todos de sua família.

Logo descobrimos que a psiquiatra foi comprada pelo marido. Em uma ligação, ela fala sobre o estupro para ele (o que deveria ser confidencial) e o avisa que Hunter está em perigo. Nesse momento, quando achamos que vai acontecer uma mudança de afeto, de que ele vai se importar mais com sua noiva após essa descoberta, nos deparamos com uma cena do rapaz indo para a academia e oferecendo comprar “qualquer coisa” para Hunter, sem conversar com ela. Hunter fica extremamente frustrada pois ouviu a conversa dos dois e acaba engolindo mais um objeto quando escapa do controle do enfermeiro, que estava adormecido. Essa foi a gota d’água para a família, que fala que ela precisa ser internada, e que ela não tem escolha. Hunter, que está sempre engolindo tudo que vem dos outros, assina o contrato, mas acaba fugindo pela janela de casa com o auxílio do enfermeiro, que começa a ter empatia por sua situação.

Ela liga para a mãe, que prontamente a recusa. Então, se hospeda em um hotel e consegue encontrar o endereço de seu pai verdadeiro, o estuprador. Ela invade a festa de aniversário da (outra) filha dele, e, em um certo momento da conversa, ele fala o que ela tinha que escutar: que ela não era ele, e que ela não fez nada. Nisso, Hunter tem seu “estalo mental”. Na próxima cena, vemos que suas roupas combinam mais com seu ser, a sua imagem está mais harmoniosa, honesta. Ela vai à uma clínica de aborto, e, no último instante do filme, vemos uma Hunter que parece genuinamente ela mesma, e genuinamente feliz (ou pronta para ser).

Na minha opinião, Swallow é um filme muito bom, que mostra como a nossa história nos faz repetir padrões (neste caso, uma gravidez indesejada), como uma família tóxica afeta a nossa auto-estima a ponto de nos perdemos na vida, que a somatização de problemas pode ser extremamente simbólica (Hunter foi de “engolir sapos” totalmente fora do controle para engolir objetos como forma de controle) e que todos podemos ter um recomeço, abandonar tudo de ruim e sermos felizes, não importa em que ponto estamos na nossa vida.

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Dica de filme: Gaslight (1944)

gaslight1944

Gaslight conta a história de Paula Alquist, que se casa com Gregory Anton. Os dois se mudam para a casa de sua tia (que era praticamente uma mãe para Paula), que foi assassinada tempos atrás. Sendo assim, Paula volta para o lar onde passou sua infância, em Londres.

Aos poucos, Paula começa a esquecer algumas coisas, perder outras… Além disso, ela começa a ouvir sons durante a noite, e as luzes de casa diminuem quando ela está sozinha (as luzes naquele tempo eram à gás, então quando alguém acendia uma luz a mais, consequentemente, as chamas já existentes diminuíam um pouco). Paula comenta tudo isso que está acontecendo para o seu marido, que diz que ela “não está bem”. Logo, ela começa a questionar a própria sanidade.

A origem do termo “gaslighting” que usamos hoje em dia vem desse filme (existe também uma peça de 1938 e um filme de 1940 com o mesmo nome e tema, porém o filme de 1944 é o mais conhecido de todos). Assim como Paula, vítimas de gaslighting são manipuladas, forçadas a se questionarem sobre suas memórias, sentimentos e ações. No filme, Gregory cria diversas “cenas” para Paula acreditar que ela está ficando doente: desde pegar objetos sem a esposa perceber, sumir com eles, e depois jogar a culpa em Paula, até mexer nas luzes e fazer barulhos no teto, dizendo que nada aconteceu e que ele estava na rua no momento. Podemos também ver uma manipulação verbal desde o começo, quando Gregory fala que ela é esquecida, ou que ela está agindo de forma irracional.

Além das manipulações mais específicas que podemos chamar nos dias atuais de “gaslighting”, Gregory também faz uso das seguintes táticas no filme:

Isolamento social: Paula nunca estava se sentindo bem para receber visitas ou ir a eventos. Isolamento é fundamental para esse tipo de abuso acontecer – afinal, quanto mais pessoas perto de você, mais difícil será de abalar o seu senso de realidade.

Transformar conhecidos em inimigos (criar rivalidade): As únicas pessoas constantemente presentes na vida de Paula eram suas empregadas (além do marido, claro). Gregory distorcia situações para as duas mulheres verem Paula de uma forma negativa. Um exemplo: Gregory falou para Paula chamar uma das ajudantes para colocar mais carvão no fogo, pois era tarefa delas. Paula diz que não queria dar trabalho desnecessário às moças, e que ela mesma poderia fazer isso. Gregory insiste, e então Paula toca o sino da casa. Quando uma das empregadas chega ao cômodo, Gregory prontamente fala que foi Paula que pediu para ser atendida.

Enfim, o filme é bom, e mostra como pequenas manipulações diárias podem fazer um estrago em nossa vida, ao ponto de questionarmos nossa sanidade.

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