Run (2020) – Um filme que “meio” que aborda um assunto delicado e importante

Run-Fuja-2020

Quando comecei a escrever o texto sobre esse filme, contei a história toda dele, e, obviamente, era só spoiler. Então decidi mudar – deletei. Não vou contar tudo, até porque o filme não precisa ser interpretado, ele é bem claro em sua mensagem. Run conta a história de uma mãe, Diane, que controla a filha Chloe de uma forma sutil (pelo menos no começo) e doentia. Resumidamente, Run conta a história de uma menina que sobrevive e foge de uma mãe cruel.

O assunto delicado é justamente esse: mães ruins. Vocês já perceberam em quantos filmes o pai é ruim? Tios? Irmãos? Outros familiares? Parece que todos podem ser ruins, menos a mãe. Se mulheres vilãs já são poucas em longas (felizmente isso tem mudado – aliás, recomendo o filme Gone Girl), mães vilãs são EXTREMAMENTE raras. Essa falta de representação não é nada além do reflexo do nosso pensamento como sociedade. Mães são constantemente postas em um pedestal, são sempre santas. Mas será que é essa a realidade? Será que a maternidade traz mesmo a santidade?

É óbvio que muitas, mas muitas mães são maravilhosas (assim como pais, tios, sobrinhos, irmãs, etc), mas, como qualquer outra categoria de ser humano, mães também podem ser ruins. Quando alguém fala que não gosta da mãe, ou que a mãe lhe faz mal, boa parte das pessoas não acredita ou aceita, é quase como se fosse a confissão de um pecado. Os críticos ouvintes podem não apedrejar (as pedras não são físicas), mas pode ter certeza que quando essas pessoas se abrem ou tem de relatar algo, frases como “mas ela é sua mãe”, “mãe é só uma”, “ninguém nunca vai te amar tanto quanto sua mãe” doem na alma tanto quanto um linchamento. Além do julgamento constante, se a vítima não for extremamente firme em sua noção de realidade e de vivência, ela pode sofrer uma forma de gaslighting (mesmo que não proposital) pelo grupo. Pessoas apontando o dedo para a vítima dizendo que talvez ela seja ruim não é nada incomum (especialmente se a mãe está fazendo campanha difamatória ou se vitimizando), além da constante repetição da famosa frase “quando ela morrer, você vai se arrepender”. É uma previsão do futuro que muitas vítimas carregam por anos até se libertarem.

Trazer a ideia de uma mãe má para as telas, para mim, é mais do que necessário. Aliás, Diane faz uso de frases que muitas dessas mães adoram, como “estou fazendo isso para o seu bem” e “como é que você pode achar que eu faria algo de ruim para a minha filha?”. O filme mostra bem essa manipulação por conta do poder materno. Chloe, por fim, consegue entender o que está acontecendo e se livra de sua prisão, mas existem muitas “Chloes” na vida real que ainda estão presas às suas mães manipuladoras.

Aliás, agora psicologizando, acho que a cadeira de rodas e todas as condições que a menina sofre podem ser vistas como simbólicas. Nem todas as Chloes da vida real estão presas a uma cadeira de rodas, mas muitas vezes são condicionadas a acreditar que a condição (psicológica, de vida, etc) que elas têm é para todo o sempre, assim como alguém com paralisia das pernas. Chloe (a do filme) começou a caminhar depois de se livrar de Diane. Não é uma questão de milagre, no entanto. No final do longa, passados anos, ela ainda está se recuperando. Na vida real também podemos ver isso: é um trabalho árduo para se levantar e caminhar com as próprias pernas depois de décadas de manipulação materna, mas tenha certeza que vale muito a pena. A liberdade (seja física ou psicológica) não tem preço.

E por que eu coloquei no título que o filme “meio” que aborda o assunto? Porque (perdoem-me, spoiler) acaba-se descobrindo que Diane não é a mãe biológica de Chloe; ela foi roubada na maternidade. O interessante é que esse detalhe final é completamente “extra” na história. O filme continuaria a MESMA coisa se esse fato não viesse à tona. Não sei se adicionar isso foi uma tentativa consciente de não causar alvoroço da audiência, ou talvez até mesmo inconsciente. Nunca saberemos.

Enfim, termino esse texto um questionamento para quem assistiu o filme:
Como é que ela tinha uma impressora 3D que funcionava sem computador?

Brincadeiras à parte, o filme é bom.

Para marcação de consultas:
psicologapaulamonteiro@gmail.com
(21) 99742-7750

Análise do filme Swallow (2019 / 2020)

SWALLOW

Swallow conta a história de Hunter, uma mulher que a grande maioria das pessoas julgaria ter uma vida “muito boa”. No entanto, isso é bem superficial. Conforme vamos assistindo o filme, percebemos que Hunter vive uma vida vazia e falsa: ela é constantemente ignorada pelo seu noivo e pela família dele, e dá para ver que aquele mundo (inclusive suas roupas) não é seu. Ela tenta se encaixar para ser amada, mas de nada adianta. Além disso, acredito que a questão da segurança financeira a segure no relacionamento com seu noivo ausente, pois ela não conseguiu nenhum emprego na área que queria e acabou trabalhando como vendedora até encontrar o rapaz.

Hunter logo descobre que está grávida. Conta ao noivo, que fica muito feliz, mas vemos que a própria Hunter não está feliz. Está fingindo felicidade quando necessário. Vemos isso até quando um dos colegas de trabalho de seu noivo lhe dá os parabéns, e ela não se liga no que ele está falando de imediato.

E é logo depois da descoberta dessa gravidez que as coisas começam a sair do controle para Hunter. Primeiramente, ela engole uma bola de gude. Depois, outros pequenos objetos são ingeridos conforme os dias passam. Nisso, parece que o humor de Hunter começa a melhorar um pouco toda vez que ela engole algo que não deveria.

Ao fazer um exame por conta da gravidez, descobre-se que tem uma pilha em seu corpo – o último objeto ingerido. Por conta disso, ela vai direto para a sala de cirurgia. Seu noivo fica extremamente irritado com toda a situação e a manda para uma psiquiatra, e todos os passos  de Hunter começam a ser vigiados por um enfermeiro contratado pela família dele.

Aos poucos, Hunter se abre para a terapeuta. Em um certo momento ela fala que engolir esses objetos lhe traz uma sensação de controle – coisa que obviamente falta em todo o resto de sua vida. Aliás, antes dos objetos, ela engolia muito desaforo e descaso. Em outra sessão, ela menciona que ela não é filha de seu pai, e que sua mãe foi estuprada. Por conta da origem conservadora, sua mãe decidiu manter a gravidez. Hunter diz que ainda assim ela é muito amada por todos de sua família.

Logo descobrimos que a psiquiatra foi comprada pelo marido. Em uma ligação, ela fala sobre o estupro para ele (o que deveria ser confidencial) e o avisa que Hunter está em perigo. Nesse momento, quando achamos que vai acontecer uma mudança de afeto, de que ele vai se importar mais com sua noiva após essa descoberta, nos deparamos com uma cena do rapaz indo para a academia e oferecendo comprar “qualquer coisa” para Hunter, sem conversar com ela. Hunter fica extremamente frustrada pois ouviu a conversa dos dois e acaba engolindo mais um objeto quando escapa do controle do enfermeiro, que estava adormecido. Essa foi a gota d’água para a família, que fala que ela precisa ser internada, e que ela não tem escolha. Hunter, que está sempre engolindo tudo que vem dos outros, assina o contrato, mas acaba fugindo pela janela de casa com o auxílio do enfermeiro, que começa a ter empatia por sua situação.

Ela liga para a mãe, que prontamente a recusa. Então, se hospeda em um hotel e consegue encontrar o endereço de seu pai verdadeiro, o estuprador. Ela invade a festa de aniversário da (outra) filha dele, e, em um certo momento da conversa, ele fala o que ela tinha que escutar: que ela não era ele, e que ela não fez nada. Nisso, Hunter tem seu “estalo mental”. Na próxima cena, vemos que suas roupas combinam mais com seu ser, a sua imagem está mais harmoniosa, honesta. Ela vai à uma clínica de aborto, e, no último instante do filme, vemos uma Hunter que parece genuinamente ela mesma, e genuinamente feliz (ou pronta para ser).

Na minha opinião, Swallow é um filme muito bom, que mostra como a nossa história nos faz repetir padrões (neste caso, uma gravidez indesejada), como uma família tóxica afeta a nossa auto-estima a ponto de nos perdemos na vida, que a somatização de problemas pode ser extremamente simbólica (Hunter foi de “engolir sapos” totalmente fora do controle para engolir objetos como forma de controle) e que todos podemos ter um recomeço, abandonar tudo de ruim e sermos felizes, não importa em que ponto estamos na nossa vida.

Para marcação de consultas:
psicologapaulamonteiro@gmail.com
(21) 99742-7750

 

Dica de filme: Gaslight (1944)

gaslight1944

Gaslight conta a história de Paula Alquist, que se casa com Gregory Anton. Os dois se mudam para a casa de sua tia (que era praticamente uma mãe para Paula), que foi assassinada tempos atrás. Sendo assim, Paula volta para o lar onde passou sua infância, em Londres.

Aos poucos, Paula começa a esquecer algumas coisas, perder outras… Além disso, ela começa a ouvir sons durante a noite, e as luzes de casa diminuem quando ela está sozinha (as luzes naquele tempo eram à gás, então quando alguém acendia uma luz a mais, consequentemente, as chamas já existentes diminuíam um pouco). Paula comenta tudo isso que está acontecendo para o seu marido, que diz que ela “não está bem”. Logo, ela começa a questionar a própria sanidade.

A origem do termo “gaslighting” que usamos hoje em dia vem desse filme (existe também uma peça de 1938 e um filme de 1940 com o mesmo nome e tema, porém o filme de 1944 é o mais conhecido de todos). Assim como Paula, vítimas de gaslighting são manipuladas, forçadas a se questionarem sobre suas memórias, sentimentos e ações. No filme, Gregory cria diversas “cenas” para Paula acreditar que ela está ficando doente: desde pegar objetos sem a esposa perceber, sumir com eles, e depois jogar a culpa em Paula, até mexer nas luzes e fazer barulhos no teto, dizendo que nada aconteceu e que ele estava na rua no momento. Podemos também ver uma manipulação verbal desde o começo, quando Gregory fala que ela é esquecida, ou que ela está agindo de forma irracional.

Além das manipulações mais específicas que podemos chamar nos dias atuais de “gaslighting”, Gregory também faz uso das seguintes táticas no filme:

Isolamento social: Paula nunca estava se sentindo bem para receber visitas ou ir a eventos. Isolamento é fundamental para esse tipo de abuso acontecer – afinal, quanto mais pessoas perto de você, mais difícil será de abalar o seu senso de realidade.

Transformar conhecidos em inimigos (criar rivalidade): As únicas pessoas constantemente presentes na vida de Paula eram suas empregadas (além do marido, claro). Gregory distorcia situações para as duas mulheres verem Paula de uma forma negativa. Um exemplo: Gregory falou para Paula chamar uma das ajudantes para colocar mais carvão no fogo, pois era tarefa delas. Paula diz que não queria dar trabalho desnecessário às moças, e que ela mesma poderia fazer isso. Gregory insiste, e então Paula toca o sino da casa. Quando uma das empregadas chega ao cômodo, Gregory prontamente fala que foi Paula que pediu para ser atendida.

Enfim, o filme é bom, e mostra como pequenas manipulações diárias podem fazer um estrago em nossa vida, ao ponto de questionarmos nossa sanidade.

Para marcação de consultas:
psicologapaulamonteiro@gmail.com
(21) 99742-7750