Kintsugi, resiliência e você

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(Fonte da imagem)

Outro dia lembrei da época em que tinha por volta dos dez anos e que costumava visitar a casa de minha prima. Muito mais velha do que eu, ela e seu marido já tinham viajado boa parte do mundo e tinham uma vasta coleção de vasos orientais que decoravam a bela sala de estar. Lembro-me também que alguns destes vasos parecerem já terem sido quebrados em outra época, mas foram “colados” novamente com uma substância dourada, deixando-os ainda mais bonitos do que a maioria dos outros vasos expostos naquele ambiente.

Descobri a pouco tempo que essa arte é chamada de kintsugi – a arte japonesa de reparar peças quebradas com ouro. Uma teoria aponta que essa técnica foi criada no século 15, quando o shogun Ashikaga Yoshimasa enviou uma de suas tigelas de chá favoritas de volta para a China para reparo, e esta voltou para ele com grampos e uma aparência não muito boa. Descontente com a situação, o shogun decidiu pedir aos artesãos japoneses uma maneira mais estética de reparação para a sua tigela. O resultado foi maravilhoso. Diz-se que os colecionadores de cerâmica da época gostaram tanto da nova técnica de reparação que muitos quebravam peças valiosas de propósito para que pudessem então serem reparadas com a técnica do kintsugi.

Mas por que estou falando tudo isso? Porque muitas vezes nos vemos quebrados depois de um trauma, seja ele qual for. Nos vemos como imperfeitos, e muitas vezes sem um rumo e sem futuro, condenados a uma vida fracassada. Quando você se sentir assim, lembre-se que esses delicados vasos de cerâmica foram colados de volta com um material que não somente é mais resistente, mas que também trouxe uma beleza inigualável com o conserto. O que eu quero dizer nesse post é que toda queda traz um aprendizado – aliás, são justamente com as quedas que aprendemos a nos levantar, e só assim percebemos o quão forte e capazes somos. Além disso, ninguém é perfeito, todos temos as nossas dificuldades, e todos passamos por desafios na vida, por mais variados que sejam. O nosso passado ruim não nos condena a um presente e a um futuro despedaçado, e sempre podemos juntar o que “quebrou” lá atrás e fazer algo ainda melhor. A verdade é que são justamente as nossas “rachaduras” que nos tornam únicos e que nos trazem beleza para a nossa vida. São essas rachaduras que nos dão histórias de vitórias para contar.

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Perfeccionismo, expectativas e depressão – você está se sabotando?

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Como terapeuta, acho que não preciso me esclarecer aqui sobre a seriedade da depressão e em como deve ser tratada na terapia e, dependendo do caso, também com medicamentos. No entanto, acho que vale a pena falar sobre pontos importantes que nós mesmos podemos refletir sozinhos, e um (de muitos) deles é o perfeccionismo. Será que o seu perfeccionismo e as suas expectativas em geral estão te sabotando?

Quando esperamos demais de nós mesmos, às vezes um simples hobby pode virar uma frustração. Tudo na vida envolve aprendizado e experiência, seja em sua profissão ou em um passa-tempo. Se você sempre desiste de algo na primeira tentativa ou na primeira falha, lembre-se que sempre haverá um momento onde você se sentirá inseguro sobre os seus talentos, seja lá no que for. Um chef de cozinha não aprendeu a fazer tudo o que faz da noite para o dia, e até mesmo os mais experientes chefs às vezes queimam um prato. Se você desistisse de todos os seus desafios na vida, não saberia amarrar os sapatos hoje em dia – coisa que você provavelmente faz com a mesma facilidade de escovar os dentes, outro ato que você teve de aprender, e provavelmente não foi tão fácil nas primeiras vezes.

A autocrítica pode nos roubar talentos ou diversões, levando muitas pessoas a se “divertirem” com atos que não lhe trazem nenhum benefício, como abuso de álcool ou drogas ilícitas. Outras podem esquecer da vida assistindo TV. Nada contra a telinha, mas quando isso é o seu meio de fuga da realidade e dos seus desafios, ela se torna um problema. Muitas pessoas aparecem no consultório com autocríticas extremas, que as pôs em uma prisão cognitiva – “não consigo fazer nada direito”, “não sou bom em nada”, eles dizem. Quem não tenta nada não se torna bom em nada, isso é fato. O caminho de todos nós é cheio de dificuldades, e, apesar de podermos desviar de alguns obstáculos, muitos deles são necessários.

Aliás, vale lembrar que o que estou falando aqui não se resume em “não desista de nada”. Às vezes algumas coisas e pessoas devem ser deixadas de lado. Desistir quando necessário é sadio e deve ser feito. Este texto é para as pessoas que desistem de tudo que não saia perfeito da primeira vez.

Por último, vale lembrar que a maioria dos perfeccionistas também esperam um bocado dos outros, criando ressentimento quando suas altas expectativas não se realizam. Novamente, é importante se lembrar dos processos e dos esforços dos outros, e não somente dos resultados. Isso não somente afeta os relacionamentos, mas também pode trazer várias formas de somatização. Internalizar esses sentimentos pode trazer depressão, dores de cabeça e ansiedade.

Se você acha que você se encaixa no perfil, tente parar e apreciar todo o processo, ao invés de apenas focar no resultado. Ao invés de desistir ou se irritar, pense em como melhorar seu desempenho, e lembre-se que tudo na vida precisa ser aprendido. Isso também vale para as pessoas com quem você se relaciona: pense no processo e no esforço delas, e não somente na expectativa. Todos nos decepcionamos às vezes, e é importante perdoar a si mesmo e aos outros.

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Alguns fatos e mitos sobre a depressão

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Setembro foi o mês da prevenção do suicídio, e acredito que falar sobre depressão seja um tema importante. Afinal, 5,8% dos brasileiros sofrem com esse mal (dados de 2017) e grande parte dos suicídios são causados por depressão, seja essa depressão acompanhada de outros problemas (como drogas ou distúrbios alimentares) ou não.

Apesar de muito combatermos o estigma que a depressão causa, ele ainda é bem prevalente. Aliás, acredito que esses 5,8% não cheguem nem perto da porcentagem certa –  afinal, muitas pessoas fingem estarem bem ou nem sequer sabem que estão deprimidas – sim, muitas pessoas tentam ignorar a depressão, o que pode trazer consequências graves, como problemas psicossomáticos, isto é, problemas “misteriosos” no corpo. Estar deprimido é visto como uma “frescura” por muitos, e ainda há os que chamam pessoas que sofrem de depressão de malucas. Infelizmente isso ainda existe. Problemas psicológicos que são tratáveis muitas vezes são escondidos da família e de amigos por medo: medo do título de “doente” ou de “frágil”, “fresco”, ou de ter seu problema completamente invalidado: “Não é nada, para de besteira” ou “Deixe de ser preguiçoso” são frases que muitos ouvem.

Parte da culpa disso vem da mídia: muitas séries e filmes incluem a palavra depressão quando deveriam falar tristeza ou tédio. A mídia tem um peso grande em nosso senso comum, que já não era bom antes mesmo da depressão começar a ser mencionada.

Por isso mesmo, acho válido discutir uns tópicos aqui em relação à depressão. Vamos a eles:

Depressão não é tristeza:
Depressão PODE ser ativada por um evento ruim, por uma tristeza, mas a depressão não é apenas tristeza. Pessoas deprimidas muitas vezes têm dificuldade para levantar da cama, e tomar banho pode parecer uma tarefa impossível às vezes. Depressão não significa chorar o dia inteiro. Aliás, para muitos, a depressão sequer é tristeza – às vezes ela se apresenta como um intenso vazio, tirando todo o significado da vida.

Muitos possuem pensamentos irracionais quando a depressão aparece. Por mais que logicamente eles saibam que alguns pensamentos “tóxicos” e extremamente negativos não façam sentido, é difícil eliminá-los. A terapia é extremamente importante nessa parte, assim como no tratamento de atitudes e pensamentos que fazem o paciente se auto-sabotar.

Depressão não é fraqueza:
Depressão possui bases biológicas, genéticas, psicológicas e ambientais. Chamar uma doença de fraqueza ou tristeza é extremamente cruel. Se você não pode dizer para um diabético para ele “pensar positivo para o açúcar baixar”, você não pode pedir o mesmo para uma pessoa deprimida. Depressão é tratado com terapia e, dependendo do caso, medicamentos.

Antidepressivos não são pílulas da felicidade, nem causam dependência:
Até mesmo alguns pacientes acreditam que o remédio vai “curar” tudo. Outros são contra os remédios pois acreditam que causam dependência. Antidepressivos não causam dependência, porém, devem ser cautelosamente controlados por um psiquiatra. Quanto à “pílula da felicidade”, ela não existe. Além do medicamento demorar um pouco para fazer efeito – isso quando se acerta de primeira -, o medicamento apenas não é a cura para a depressão, e sim um caminho: o antidepressivo estabiliza o humor para a terapia poder fazer efeito.

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