Perfeccionismo, expectativas e depressão – você está se sabotando?

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Como terapeuta, acho que não preciso me esclarecer aqui sobre a seriedade da depressão e em como deve ser tratada na terapia e, dependendo do caso, também com medicamentos. No entanto, acho que vale a pena falar sobre pontos importantes que nós mesmos podemos refletir sozinhos, e um (de muitos) deles é o perfeccionismo. Será que o seu perfeccionismo e as suas expectativas em geral estão te sabotando?

Quando esperamos demais de nós mesmos, às vezes um simples hobby pode virar uma frustração. Tudo na vida envolve aprendizado e experiência, seja em sua profissão ou em um passa-tempo. Se você sempre desiste de algo na primeira tentativa ou na primeira falha, lembre-se que sempre haverá um momento onde você se sentirá inseguro sobre os seus talentos, seja lá no que for. Um chef de cozinha não aprendeu a fazer tudo o que faz da noite para o dia, e até mesmo os mais experientes chefs às vezes queimam um prato. Se você desistisse de todos os seus desafios na vida, não saberia amarrar os sapatos hoje em dia – coisa que você provavelmente faz com a mesma facilidade de escovar os dentes, outro ato que você teve de aprender, e provavelmente não foi tão fácil nas primeiras vezes.

A autocrítica pode nos roubar talentos ou diversões, levando muitas pessoas a se “divertirem” com atos que não lhe trazem nenhum benefício, como abuso de álcool ou drogas ilícitas. Outras podem esquecer da vida assistindo TV. Nada contra a telinha, mas quando isso é o seu meio de fuga da realidade e dos seus desafios, ela se torna um problema. Muitas pessoas aparecem no consultório com autocríticas extremas, que as pôs em uma prisão cognitiva – “não consigo fazer nada direito”, “não sou bom em nada”, eles dizem. Quem não tenta nada não se torna bom em nada, isso é fato. O caminho de todos nós é cheio de dificuldades, e, apesar de podermos desviar de alguns obstáculos, muitos deles são necessários.

Aliás, vale lembrar que o que estou falando aqui não se resume em “não desista de nada”. Às vezes algumas coisas e pessoas devem ser deixadas de lado. Desistir quando necessário é sadio e deve ser feito. Este texto é para as pessoas que desistem de tudo que não saia perfeito da primeira vez.

Por último, vale lembrar que a maioria dos perfeccionistas também esperam um bocado dos outros, criando ressentimento quando suas altas expectativas não se realizam. Novamente, é importante se lembrar dos processos e dos esforços dos outros, e não somente dos resultados. Isso não somente afeta os relacionamentos, mas também pode trazer várias formas de somatização. Internalizar esses sentimentos pode trazer depressão, dores de cabeça e ansiedade.

Se você acha que você se encaixa no perfil, tente parar e apreciar todo o processo, ao invés de apenas focar no resultado. Ao invés de desistir ou se irritar, pense em como melhorar seu desempenho, e lembre-se que tudo na vida precisa ser aprendido. Isso também vale para as pessoas com quem você se relaciona: pense no processo e no esforço delas, e não somente na expectativa. Todos nos decepcionamos às vezes, e é importante perdoar a si mesmo e aos outros.

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Alguns fatos e mitos sobre a depressão

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Setembro foi o mês da prevenção do suicídio, e acredito que falar sobre depressão seja um tema importante. Afinal, 5,8% dos brasileiros sofrem com esse mal (dados de 2017) e grande parte dos suicídios são causados por depressão, seja essa depressão acompanhada de outros problemas (como drogas ou distúrbios alimentares) ou não.

Apesar de muito combatermos o estigma que a depressão causa, ele ainda é bem prevalente. Aliás, acredito que esses 5,8% não cheguem nem perto da porcentagem certa –  afinal, muitas pessoas fingem estarem bem ou nem sequer sabem que estão deprimidas – sim, muitas pessoas tentam ignorar a depressão, o que pode trazer consequências graves, como problemas psicossomáticos, isto é, problemas “misteriosos” no corpo. Estar deprimido é visto como uma “frescura” por muitos, e ainda há os que chamam pessoas que sofrem de depressão de malucas. Infelizmente isso ainda existe. Problemas psicológicos que são tratáveis muitas vezes são escondidos da família e de amigos por medo: medo do título de “doente” ou de “frágil”, “fresco”, ou de ter seu problema completamente invalidado: “Não é nada, para de besteira” ou “Deixe de ser preguiçoso” são frases que muitos ouvem.

Parte da culpa disso vem da mídia: muitas séries e filmes incluem a palavra depressão quando deveriam falar tristeza ou tédio. A mídia tem um peso grande em nosso senso comum, que já não era bom antes mesmo da depressão começar a ser mencionada.

Por isso mesmo, acho válido discutir uns tópicos aqui em relação à depressão. Vamos a eles:

Depressão não é tristeza:
Depressão PODE ser ativada por um evento ruim, por uma tristeza, mas a depressão não é apenas tristeza. Pessoas deprimidas muitas vezes têm dificuldade para levantar da cama, e tomar banho pode parecer uma tarefa impossível às vezes. Depressão não significa chorar o dia inteiro. Aliás, para muitos, a depressão sequer é tristeza – às vezes ela se apresenta como um intenso vazio, tirando todo o significado da vida.

Muitos possuem pensamentos irracionais quando a depressão aparece. Por mais que logicamente eles saibam que alguns pensamentos “tóxicos” e extremamente negativos não façam sentido, é difícil eliminá-los. A terapia é extremamente importante nessa parte, assim como no tratamento de atitudes e pensamentos que fazem o paciente se auto-sabotar.

Depressão não é fraqueza:
Depressão possui bases biológicas, genéticas, psicológicas e ambientais. Chamar uma doença de fraqueza ou tristeza é extremamente cruel. Se você não pode dizer para um diabético para ele “pensar positivo para o açúcar baixar”, você não pode pedir o mesmo para uma pessoa deprimida. Depressão é tratado com terapia e, dependendo do caso, medicamentos.

Antidepressivos não são pílulas da felicidade, nem causam dependência:
Até mesmo alguns pacientes acreditam que o remédio vai “curar” tudo. Outros são contra os remédios pois acreditam que causam dependência. Antidepressivos não causam dependência, porém, devem ser cautelosamente controlados por um psiquiatra. Quanto à “pílula da felicidade”, ela não existe. Além do medicamento demorar um pouco para fazer efeito – isso quando se acerta de primeira -, o medicamento apenas não é a cura para a depressão, e sim um caminho: o antidepressivo estabiliza o humor para a terapia poder fazer efeito.

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Vamos falar sobre 13 Reasons Why?

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Depois de todo o alvoroço na internet sobre a série, eu tive de assistí-la. A curiosidade foi grande demais. Parece que as pessoas se dividiram em dois grupos: os que elogiaram a série, e os que criticavam por ser um empurrão para o suicídio.

Não acredito que séries tenham que ensinar nada quando este não é o propósito destas, especialmente quando são baseadas em livros – afinal, eles não poderiam alterar nada para deixar mais “educativo” sem sair da história contada no livro. Quantos filmes de ação cheios de violência gratuita estão por aí e a gente não fala nada? Filmes em que o adultério não é criticado são mais do que comuns também. Então, por que 13 Reasons Why foi alvo de críticas? Creio que a série foi o alvo escolhido para ser criticado por tratar de um assunto que é considerado taboo: o suicídio. Apesar de não ser “educativa”, a série mostra uma história de bullying com cenas muito semelhantes às da vida real – e, assim como na vida real, nem sempre as histórias fictícias têm um final feliz. Aliás, se tivesse um final feliz, talvez não tivesse chamado tanta atenção, e talvez não estívessemos pensando tanto no assunto, concorda?

Apesar de defender a série, uma coisa é fato: não é uma série que deve ser vista por todos, assim como muitos livros por aí não devem ser lidos por crianças, por exemplo. Por que eu acho que a série não deve ser vista por todos? Eis alguns pontos:

A série idealiza o suicídio, já que Hannah Baker acaba, de certa forma, se vingando das pessoas que a maltrataram no passado. Considerando que vingança é um dos grandes fatores em muitos suicídios de adolescentes (aproximadamente um quinto deles), a série pode sim ser um empurrão para o ato. A verdade é que Hannah nunca viu o resultado de suas fitas. No entanto, Hannah está tão presente na série, que é como se ela soubesse o que está acontecendo, o que não aconteceria na vida real.

Se fosse uma série educativa, ela teria falhado: A série ensina tudo o que fazer de errado para alguém, mas não mostra como ajudar. Hannah deveria ter recebido a ajuda que precisava e deveria ter sido escutada.

Apesar de esses pontos “negativos”, a série é muito boa. Como eu disse antes, 13 Reasons Why não tem nenhum compromisso em ser educativa e não deve ser vista por pessoas fragilizadas, mas com toda certeza pode ser uma ótima forma de conversar com o seu filho sobre o assunto.

Agora, alguns pontos que a série toca muito bem é o cyberbullying e a minimização da agressão, o que acontece muito no mundo real – muitas vezes encorajamos vítimas de estupro a ‘relevarem’ a agressão, como se não fosse nada – é uma triste verdade que está enraizada na nossa cultura e que temos que mudar. Além disso, como eu disse antes, por a série não salvar Hannah, acaba-se mostrando a triste realidade de muitos jovens que sofrem bullying, e que devemos prestar mais atenção aos nossos amigos/filhos/parentes e ajudá-los caso estejam sofrendo de depressão. Assim como nos revoltamos com o final (ou o começo) da série, devemos nos revoltar com atos de bullying e abuso, e ajudar quem precisa, na vida real.

Se você possui pensamentos suicidas, saiba que existe ajuda.

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