Perdão, justiça, punição e relacionamentos

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É apenas bom senso deixar pequenos erros dos outros de lado. Se irritar por coisas bobas é perda de tempo e de energia, além de possivelmente drenar nossos relacionamentos a longo prazo. Ninguém é perfeito, então é de se esperar que pessoas com quem convivemos nos aborreçam/magoem de vez em quando, assim como nós faremos o mesmo com elas. O que eu quero dizer é, uma roupa deixada no chão (ou qualquer coisa pequena que você queira imaginar aqui) uma vez não é motivo para brigar com o seu parente ou parceiro, nem motivo para deixar notinhas passivo-agressivas pela casa. Aliás, ser passivo-agressivo nunca é a solução para nada, mas essa conversa fica para outro dia.

No entanto, o que fazer quando se trata de transgressões graves?

O que fazer quando realmente sofremos após um ato grave feito por alguém que amamos? Após o erro, um desequilíbrio se instaura no relacionamento (não necessariamente amoroso) e, obviamente, precisamos tomar uma atitude perante isso. Muitas pessoas se perguntam o que fazer quando isso acontece: Devo apenas perdoar? Devo me vingar? Ou fazer tratamento de silêncio?

A resposta para essa pergunta é: nenhuma das opções anteriores.

Nessas situações de injustiça, podemos responder de várias formas:

1) Apenas perdoar, e acreditar que não acontecerá novamente.
2) Cometer um tipo de justiça punitiva. Exemplos: tratamento de silêncio, pagar na mesma moeda, humilhação virtual ou pública…
3) Aplicar a justiça restauradora.
4) Não perdoar e cortar os laços. É sempre uma opção (e, algumas vezes, a certa), mas não é o assunto deste texto. Logo, não vamos trabalhar no nº4.

Com isso em mente, vou colocar aqui uma situação, os exemplos de resposta e suas consequências:

Situação:

João e Maria são casados. Em um churrasco, Maria bebeu demais e “pagou mico”: falou demais (como a maioria dos bêbados fazem), e compartilhou detalhes íntimos sobre ela e seu marido. João se aborreceu, obviamente. Maria não tinha 15 anos e deveria controlar sua bebida. Além disso, ela não deveria falar detalhes íntimos sobre os dois sem falar previamente com ele. Ele a carregou para casa, e no dia seguinte ela não se lembrava muito do que tinha acontecido; já ele, se lembrava muito bem, e estava extremamente magoado.

João poderia responder das seguintes maneiras:

1) Fingir que nada aconteceu, ou apenas contar o que aconteceu e não falar sobre seus próprios sentimentos, como se não tivesse acontecido nada importante, perdoando o ato.
Obviamente, tomando essa decisão, João continuaria se sentindo magoado e injustiçado, talvez “acumulando raiva” para uma briga no futuro, o que poderia destruir o relacionamento eventualmente. Além disso, Maria não aprendeu nada nessa situação. Ela não viu nenhuma consequência em seu comportamento, deixando assim uma brecha para a repetição da bebedeira, o que, obviamente, pioraria o relacionamento do casal. Resumindo, isso seria danoso não somente para João, mas também para o casal.

2) Justiça punitiva: João poderia encher a cara no próximo churrasco, para sua esposa “sentir na pele” o que ele sentiu.
Dois problemas não criam solução, e sim um problemão. João pode até se sentir bem momentaneamente fazendo isso, mas não vai durar muito. A verdade é que nada foi resolvido, o ressentimento voltará, e não apenas para João, mas agora também para Maria, que ficará magoada com o comportamento de seu marido.

Outro exemplo de justiça punitiva: tratamento de silêncio.
João poderia não explicar nada e simplesmente não falar com Maria até ela pedir desculpas, ou até ele “perdoar” por si mesmo (o que voltaria para o caso 1). Sem ouvir o problema e os sentimentos de João, Maria pediria desculpas, mas nada garante que esse pedido seja honesto.

Na melhor das hipóteses, Maria teria aprendido a lição: teria se arrependido honestamente e não repetiria mais a bebedeira. Ela veria que magoou seu marido, e aprenderia com o seu erro.

No entanto, sem receber um feedback de seu marido, de como ele se sentiu, e o impacto que aquilo causou no relacionamento, Maria poderia muito bem achar o tratamento de silêncio uma atitude infantil e exagerada de João, pedindo desculpas apenas para amenizar as coisas. Isto é, haveria uma probabilidade de Maria não entender a gravidade da situação. Novamente, João pode se sentir bem com a “vingança” e com o pedido de desculpas de sua esposa (que pode muito bem ser um pedido de desculpas completamente vazio), mas não por muito tempo.

3) Justiça restauradora:
João não se sente confortável e não quer conversar por um tempo, o que é direito dele – afinal, ele está magoado. Porém, ao contrário da situação anterior, João senta com Maria no dia seguinte e expressa como se sentiu, algo como:
“Olha, eu não quero papo por um tempo. Você me magoou muito com o jeito que se portou ontem.” Prosseguindo com mais explicações, e mostrando como isso afetou o relacionamento, pedindo para que isso não aconteça novamente.

Ao escutar seu marido, Maria não tem dúvidas da gravidade do que aconteceu, e de como tudo isso causou um impacto em seu relacionamento com João. Uma via de comunicação saudável entre o casal abre mais possibilidade para um pedido de desculpas honesto de Maria, assim como uma solução real para o problema, ao invés de varrê-lo para debaixo do tapete. Se Maria for razoável, ela entenderá o problema e não repetirá o ato. Claro, tudo ainda está fresco na memória de João, e nada é perdoado imediatamente; ele tem todo o direito de continuar aborrecido por um tempo, é apenas natural. No entanto, expressando para sua esposa como se sentiu e com um pedido de desculpas sincero dela, o perdão será verdadeiro, e não algo que ficará corroendo no fundo de sua mente por tempo indeterminado.

Resumindo:

Nunca ache que a outra pessoa lê a sua mente. Uma comunicação aberta e honesta é essencial para a resolução real do problema. Se está com muita raiva no calor do momento, tudo bem: se afaste e depois converse com calma, explicando todos os pontos. Perdoar por perdoar não apenas cria um desequilíbrio no relacionamento (romântico ou não), mas também o torna tóxico. Além disso, deixar erros graves de lado faz com que a outra pessoa não veja a mesma seriedade destes, deixando-a mais propensa à repetição dos mesmos. Afinal, é necessário que esta veja o dano que causou para poder fazer um pedido de desculpas honesto e aprender com o erro. Por último, lembre-se que vingança pode parecer a melhor solução no calor do momento, mas elas são apenas temporárias. Elas fazem com que os problemas voltam depois, cada vez maiores, como uma bola de neve.

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Sexo: perguntas que você precisa fazer ao seu parceiro antes do casamento

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Por mais que um casamento seja muito mais do que sexo, relacionamentos íntimos são importantes para a manutenção de um. Na clínica, vejo muitos dos meus clientes com problemas que poderiam ter sido evitados caso uma conversa tivesse sido tida com seus parceiros antes de “fechar o contrato”. A falta de verdadeira intimidade com seu parceiro pode criar sérios problemas no futuro, inclusive o divórcio. Portanto, antes de tomar o próximo passo, veja se esses assuntos já foram discutidos:

Você possui alguma fantasia sexual? Preferências?
Apesar de nem todos os parceiros possuírem fantasias, considere também as preferências sexuais em geral neste mesmo tópico. Quando os parceiros estão no começo de um relacionamento, é comum esconder maiores intimidades, que geralmente aparecem aos poucos. No entanto, às vezes o assunto é importante e não é discutido por vergonha, o que pode levar à frustração em longo prazo. Um exemplo aqui são os fetiches: e se o seu parceiro tiver um? Isso precisa ser conversado, e um acordo que seja satisfatório para os dois precisa ser encontrado.

Você gosta de sexo? De quanto em quanto tempo você acha uma periodicidade saudável?
No começo do relacionamento muitos parceiros exageram na quantidade, seja para agradar o parceiro ou porque acha que é o certo. Algumas pessoas sequer se importam com o ato, e só fazem porque “faz parte”. Uma pessoa que quer ter relações uma vez ao ano terá problemas com uma outra que quer ter cinco vezes ao dia. Isso tudo deve ser conversado. Não existe uma periodicidade ideal, e sim uma periodicidade que agrade a ambos.

Você possui algum problema sexual que eu não sei?
Disfunções seja por depressão ou qualquer outro motivo precisam ser mencionados, assim como qualquer problema genital. Traumas sexuais também precisam ser conversados, seja em particular ou junto com um terapeuta.

Você quer ter filhos?
É uma pergunta que não tem a ver com sexo, mas tem a ver com o resultado do ato. Quais são as expectativas de cada um para o futuro? Vocês dois querem filhos? Se sim, quantos? Qual seria o método de criação? Se não, vocês sempre usarão algum contraceptivo? Se sim, qual? Seu parceiro tem algo contra camisinha? Essas perguntas precisam ser respondidas para evitar brigas ou surpresas no futuro.

Como foram os seus relacionamentos anteriores?
Não podemos dizer que pessoas que já traíram sempre trairão, mas se o seu parceiro teve cinco relacionamentos e em todos eles houve traição por parte dele, interprete isso como um mau sinal. Não somente traição, mas qualquer tipo de repetição deve ser levado em conta: abandono, falta de interesse, raiva, etc.

Por último, lembre-se que não existem casais perfeitos e 100% compatíveis, e sim pessoas dispostas a negociar e a chegar em um acordo que agrade a ambos. A ideia de que qualquer diferença pode ser eliminada apenas no convívio é muito bonita, mas é uma ilusão. Muitas diferenças podem ser eliminadas sim, porém há a necessidade de saber se existe um caminho para isso, se os dois estão dispostos a negociar e o quanto estão dispostos a ceder.

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