Proibição de melhores amigos?

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Não sou psicóloga infantil (trabalho apenas com adolescentes e adultos), mas ao ler a notícia de que as escolas na Inglaterra estão basicamente banindo “melhores amigos”, minhas sirenes mentais começaram a soar e eu tive de criar este post. Essa nova ideia é  uma bela demonstração de algo que pode ser em soar benéfico para as almas inocentes, mas na realidade é exatamente o oposto disso.

Primeiramente, já foi provado cientificamente que melhores amigos são essenciais para uma infância saudável. É com o seu melhor amigo que você aprende a confiar e a dividir. Adultos que não possuem melhores amigos na infância tendem a crescer com mais ansiedade social do que crianças que tinham um amiguinho ou uma amiguinha especial.

Aprofundando um pouquinho no assunto da confiança, a sociedade dos pequenos é basicamente a mesma de nós adultos, e é nessa sociedade-miniatura que eles aprendem certos conceitos muito úteis para o futuro. Uma coisa que nós adultos sabemos muito bem é que não podemos confiar em todos os nossos “colegas”. Por isso mesmo, recorremos aos nossos amigos próximos. Quem nunca foi traído por uma fofoca de um coleguinha? Aprendemos na infância a selecionar os nossos amigos e apoiá-los, dando prioridade a estes comparado aos outros. Amizade, assim como confiança, se ganha, não se é dada na bandeja. O mundo não é bonito, e sempre haverão pessoas mal-intencionadas.

Além disso, precisamos mencionar que é justamente essa aceitação do grupo que ajuda a moldar certos comportamentos das crianças. Comportamentos inaceitáveis socialmente fazem algumas crianças “ficarem de fora”, e, ao perceberem isso, elas podem se corrigir. Isso é extremamente importante para a sociedade: existem coisas que você não pode fazer no mundo, e essas coisas vão afastar as pessoas de você. Percebam que não estou falando de bullying – o que é completamente condenável – mas sim de um afastamento natural daquele amiguinho que faz coisas desagradáveis.

Vou dar um exemplo:

Sabe aquele amiguinho que ficava cutucando o nariz ou passando a mão em lugares impróprios? Pois é, outras crianças geralmente se afastam porque não é legal nem adequado – e não é mesmo! Existem motivos para esse afastamento. Com o afastamento, essa criança vai entender que o seu comportamento é errado, e vai tentar modificá-lo. A noção de que existem expectativas sociais é extremamente importante.

Além disso, o que vai acontecer se forçarem os coleguinhas a serem “amiguinhos” desse menino do exemplo? Não somente esse mocinho não vai se corrigir, mas as crianças vão ficar ainda mais irritadas por terem de sentar com o garoto. Logo, o garoto perde não somente por uma, mas por duas formas:
-Ele não vai se corrigir, logo, continuará com o comportamento socialmente inadequado, gerando problemas na vida adulta.
-Ele vai ser ainda mais isolado dos amigos, já que o amiguinho que for forçado a sentar com ele vai ter sentimentos ainda mais negativos sobre o menino. Afinal, quem é que ganha amigos por força? Ninguém.

Existem dez mil maneiras de aumentar a interação entre crianças, e banir um laço extremamente fundamental para o desenvolvimento NÃO é uma delas.

Por último, e o ponto que eu considero mais preocupante é:

Que sociedade é essa que estamos criando? Banir melhores amigos e proibir de amigos mais próximos sentarem juntos no ônibus da escola? Que mundo fascista que estamos criando para que “todos se sintam aceitos” a todo o custo? Deixo essas perguntas para a sua reflexão.

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Término de amizade

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Todos passamos por um momento em que um amigo se afastou e a amizade deixou de existir. Sentimos tristeza, raiva e ciúmes, especialmente se o ex-amigo começou a andar com outra pessoa.

É curioso como, mesmo tendo esse vínculo todo com alguém (às vezes até maior que um vínculo amoroso), a quebra de uma amizade, no ponto de vista social, não é importante. Dizemos muitas vezes a nós mesmo que não deveria doer tanto. Ligue para alguém para chorar porque rompeu um relacionamento amoroso e receberá compaixão; o mesmo não é tido caso ligue para chorar por causa de uma perda de amizade. É algo cultural: filmes mostram o tempo inteiro o valor do amor romântico, e grande parte das músicas são sobre corações despedaçados ou amor romântico em geral. A amizade vem muito, mas muito atrás.

Apesar de perdas de amizades não incluem diminuição/perda de atividade sexual (pelo menos em geral), o sentimento primário é basicamente o mesmo: “Ele(a) não me quer mais”. Não importa o tipo de relacionamento, não ser mais desejado por alguém dói.

Voltando aos filmes e às idéias (que afetam demais a gente)… A maioria dos filmes passa a idéia de que amizades fortes são eternas. Agora pare e pense quantos ‘melhores amigos’ seus , desde a sua infância (ou desde quando apareceram na sua vida) permancem sendo seus melhores amigos? Quantos desses estão aí por décadas? Eles existem, mas com toda certeza não são os mais comuns.

A verdade é que amizades passam pelos mesmos problemas de relações amorosas: há desentendimentos, decepções, traições, e o efeito do tempo. O tempo faz com que mudemos, e nem sempre essa mudança bate com a mudança do(a) amigo(a), causando afastamento. Precisamos adicionar aqui que, além disso tudo, como a relação amorosa é tão mais valorizada que a de amizade, acabamos muitas vezes não dando o valor devido aos nossos amigos, o que também causa um distanciamento, que, muitas vezes, poderia ser evitado.

Portanto, em relação à amizades perdidas (e sem volta, pelo menos temporariamente) é o caso de aceitação: Aceitar que o tempo passa e que as situações e as pessoas mudam. E quanto às amizades de agora, dê a atenção que elas merecem, e evite perdas desnecessárias.