Ratinhos, jogos de azar e relacionamentos abusivos

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Se você já ouviu falar de Skinner e seus trabalhos em condicionamento, você deve ter ideia do conceito de reforço. Reforço é algo dado (ou retirado, nos casos de reforço negativo, mas não vamos falar sobre isso aqui) que “alimenta” um comportamento, deixando-o com mais chances de ocorrer. Vamos pensar em um ratinho: o ratinho descobre que, quando pressiona um botão/alavanca/etc, ele recebe comida. Sendo assim, ele vai associar aquele botão com comida, e toda vez que estiver com fome, o pressionará. Se a comida cair toda vez que o ratinho pressiona o botão, isso é chamado de reforço contínuo.

Mas o que acontece quando esse reforço só aparece de vez em quando? Ao invés do ratinho perder interesse no botão, ele ficará mais obcecado com ele. Acha parecido com o vício em jogos de azar? Pois você está correto. É justamente o fato de você não saber quando você vai ganhar que te prende ao jogo. Esse reforço sem previsão é chamado reforço intermitente, e é altamente viciante. Pense numa raspadinha: num dia você não ganha nada, nem no outro, nem no outro… e aí daqui a pouco você ganha R$5. Bom, já que você ganhou R$5 (deixando de lado que você já perdeu uns R$50), é bem possível ganhar aquele prêmio de R$100 mil, certo? E aí você continua, e continua… E todo pequeno prêmio parece uma vitória muito mais simbólica do que todo o dinheiro que você já perdeu. É uma cegueira em relação a todo o lado negativo por conta daquele curto período positivo.

E por que isso acontece? Porque nosso cérebro libera dopamina toda vez que recebemos um reforço. Não somente isso, mas o cérebro libera muito mais dopamina quando este reforço não é contínuo. Biologicamente falando, para a sobrevivência, dar mais valor para algo que não é contínuo faz muito sentido: não precisamos dar muita atenção ao que ganhamos sempre, pois está garantido. Precisamos focar no que não vem sempre, logo, isso se torna de maior valor. Só que não estamos mais “nas cavernas”, e esse tipo de modo de sobrevivência nos prende a coisas que nos dão mais dor de cabeça do que satisfação, como, por exemplo, relacionamentos abusivos.

Existem relacionamentos ruins. Existem relacionamentos com pessoas chatas e insuportáveis. Existem relacionamentos com pessoas ausentes, e com canalhas também. Mas se um relacionamento for consistentemente ruim, um término vai ocorrer (a menos que haja outros fatores envolvidos, mas a pessoa que decide ficar não está iludida). O problema de relacionamentos abusivos são justamente os seus altos e baixos e sua inconsistência, que vira uma prisão emocional. Você nunca sabe quando algo bom pode acontecer. Vocês brigam, e na semana seguinte vocês estão viajando. Você é chamado de inútil, mas dois dias depois recebe flores. Você apanha, mas na manhã seguinte recebe café da manhã na cama, carinho e um pedido de desculpas. As mesmas migalhas que o ratinho ansiosamente espera são as que você espera. É esperar o grande prêmio na raspadinha.

É importante entender que, se você está em um relacionamento assim, você está preso a uma ilusão. Ilusão de que as coisas vão melhorar, ilusão de que essa pessoa vai mudar. Se você sempre cede e as coisas acabam explodindo, se nunca existe uma negociação final para o caos e nada é estável, por que você acha que isso vai mudar um dia, depois da vigésima tentativa? Em relacionamentos abusivos existe uma normalização do ruim e uma supervalorização do normal e do bom.

Por último, quero deixar um aviso: provavelmente, ao tentar terminar um relacionamento abusivo, podem aparecer promessas de melhora, de procurar terapia, choro, e talvez até um pedido de casamento. Pense bem na possibilidade de todas essas promessas serem mais migalhas, quando você merece muito mais. Pense em todas as outras chances que você já deu. Imagine a sua vida como um grande jogo de raspadinhas, e seu afeto e sua dedicação como moeda de troca. Se você já gastou R$2 mil e obteve apenas R$100 de volta, quais são as chances de você ganhar o grande prêmio e tapar esse “buraco”? Outra coisa: pelo menos, dinheiro a gente ganha de volta – tempo, não. 

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