Abuso Reativo – O que é, e como narcisistas (e manipuladores em geral) se aproveitam disso

abusoreativo

Abuso reativo é a reação ao abuso cometido por uma ou mais pessoas. Imagine o seguinte: o seu parceiro te insulta, te empurra, te controla por dias seguidos. Semanas. Meses. Você vai segurando, segurando, segurando. Uma hora você quebra – afinal, ninguém é de ferro. Você revida, insulta ou agride o manipulador. Isso é o abuso reativo.

Com a definição já estabelecida, vamos para a parte complexa, a dinâmica:

Abusadores vêem o abuso reativo como um prato cheio, e usam o seu momento crítico para fazer gaslighting e te tornar o vilão da história. Quando você finalmente explode, o abusador geralmente diz coisas como:
-Você está agindo como um maluco!
-Olha o que você faz comigo. Você é um monstro!
-Você é doente, não está bem da cabeça!
-Você precisa tomar o seu “remedinho”
-Viu o que eu tenho que aturar?
(resumindo, voltam a culpa de tudo para você)

A vítima, que já está fragilizada por estar numa situação com um manipulador emocional por um tempo, se culpa, e diz que não sabe o que aconteceu com ela, que ela se tornou um monstro. Nos olhos dela, ela é a abusadora da história. E para o real abusador, isso vira munição para qualquer momento, inclusive como desculpa para novas agressões do mesmo e para segurar a vítima no relacionamento.

Uma observação aqui: De forma alguma estou dizendo que explodir e reagir de tal forma está certo, mas é uma reação compreensível (porém, mais uma vez, errada) para o contexto. Situações anormais geram comportamentos anormais.

Se você parar para perceber, se conseguir se distanciar da situação, verá que os manipuladores emocionais gostam dessa reação da vítima. Não somente pelos motivos acima citados, mas também porque enquanto eles são os únicos que atacam, eles sabem que estão perdendo e que estão errados. Quase todo manipulador pára de atacar somente quando a bomba explode, porque é aí que ele pode usar seu papel de vítima. É nesse momento que o relacionamento tem um pequeno momento de sossego, para retomar a dinâmica de conflito logo depois.

Em casos assim, quando a própria vítima se sente como se fosse a vilã, como identificar quem é o abusador e quem é a vítima? Existe possibilidade de abuso mútuo?
Abuso mútuo é extremamente raro (ou inexistente, de acordo com alguns pesquisadores).
A vítima tende a se culpar por tudo, por todos os atos que cometeu, e os vê como inadmissíveis, enquanto o abusador raramente admite culpa, e, quando admite, cria um motivo para a sua ação – isto é, o velho “eu te agredi sim, MAS…”. No discurso de desculpa do manipulador emocional há uma diminuição da culpa dele(a) e uma acusação sutil para o lado da vítima.

Manipuladores emocionais e problemas psicológicos/diagnósticos:
Outra maneira que os manipuladores controlam a situação é com problemas mentais: se o abusador tem um diagnóstico ou trauma, ele o usa como desculpa para os abusos (“eu tenho problemas e você vai ter de entender que sou assim”). Para a vítima, a balança tende para o outro lado – os remédios não estão funcionando, a terapia não está funcionando, a pessoa é maluca (e o abusador é um anjo por aturar tudo o que ele atura) etc. No entanto, quando o abusador REALMENTE vê que está perdendo o poder, ele pode dizer que precisa trocar o remédio/fazer terapia, e que ele vai melhorar (leia este texto aqui).

Voltando o assunto para as vítimas:
Se perdoe pelos comportamentos errados, e se comprometa a não reagir mais de maneira agressiva. Volte nos momentos onde você reagiu ao abuso, e veja o que você poderia fazer de diferente. Realmente se imagine nessas cenas, refazendo-as da forma certa.

Se você se transformou em uma pessoa que você não é e nem quer ser nessa relação, reflita sobre como você era antes de isso tudo acontecer. E reflita também sobre o seguinte: se você se transformou em um ser tão diferente (e agressivo) para sobreviver com essa pessoa (ou não ser completamente engolido(a) por ela), vale a pena continuar?

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Análise do filme Swallow (2019 / 2020)

SWALLOW

Swallow conta a história de Hunter, uma mulher que a grande maioria das pessoas julgaria ter uma vida “muito boa”. No entanto, isso é bem superficial. Conforme vamos assistindo o filme, percebemos que Hunter vive uma vida vazia e falsa: ela é constantemente ignorada pelo seu noivo e pela família dele, e dá para ver que aquele mundo (inclusive suas roupas) não é seu. Ela tenta se encaixar para ser amada, mas de nada adianta. Além disso, acredito que a questão da segurança financeira a segure no relacionamento com seu noivo ausente, pois ela não conseguiu nenhum emprego na área que queria e acabou trabalhando como vendedora até encontrar o rapaz.

Hunter logo descobre que está grávida. Conta ao noivo, que fica muito feliz, mas vemos que a própria Hunter não está feliz. Está fingindo felicidade quando necessário. Vemos isso até quando um dos colegas de trabalho de seu noivo lhe dá os parabéns, e ela não se liga no que ele está falando de imediato.

E é logo depois da descoberta dessa gravidez que as coisas começam a sair do controle para Hunter. Primeiramente, ela engole uma bola de gude. Depois, outros pequenos objetos são ingeridos conforme os dias passam. Nisso, parece que o humor de Hunter começa a melhorar um pouco toda vez que ela engole algo que não deveria.

Ao fazer um exame por conta da gravidez, descobre-se que tem uma pilha em seu corpo – o último objeto ingerido. Por conta disso, ela vai direto para a sala de cirurgia. Seu noivo fica extremamente irritado com toda a situação e a manda para uma psiquiatra, e todos os passos  de Hunter começam a ser vigiados por um enfermeiro contratado pela família dele.

Aos poucos, Hunter se abre para a terapeuta. Em um certo momento ela fala que engolir esses objetos lhe traz uma sensação de controle – coisa que obviamente falta em todo o resto de sua vida. Aliás, antes dos objetos, ela engolia muito desaforo e descaso. Em outra sessão, ela menciona que ela não é filha de seu pai, e que sua mãe foi estuprada. Por conta da origem conservadora, sua mãe decidiu manter a gravidez. Hunter diz que ainda assim ela é muito amada por todos de sua família.

Logo descobrimos que a psiquiatra foi comprada pelo marido. Em uma ligação, ela fala sobre o estupro para ele (o que deveria ser confidencial) e o avisa que Hunter está em perigo. Nesse momento, quando achamos que vai acontecer uma mudança de afeto, de que ele vai se importar mais com sua noiva após essa descoberta, nos deparamos com uma cena do rapaz indo para a academia e oferecendo comprar “qualquer coisa” para Hunter, sem conversar com ela. Hunter fica extremamente frustrada pois ouviu a conversa dos dois e acaba engolindo mais um objeto quando escapa do controle do enfermeiro, que estava adormecido. Essa foi a gota d’água para a família, que fala que ela precisa ser internada, e que ela não tem escolha. Hunter, que está sempre engolindo tudo que vem dos outros, assina o contrato, mas acaba fugindo pela janela de casa com o auxílio do enfermeiro, que começa a ter empatia por sua situação.

Ela liga para a mãe, que prontamente a recusa. Então, se hospeda em um hotel e consegue encontrar o endereço de seu pai verdadeiro, o estuprador. Ela invade a festa de aniversário da (outra) filha dele, e, em um certo momento da conversa, ele fala o que ela tinha que escutar: que ela não era ele, e que ela não fez nada. Nisso, Hunter tem seu “estalo mental”. Na próxima cena, vemos que suas roupas combinam mais com seu ser, a sua imagem está mais harmoniosa, honesta. Ela vai à uma clínica de aborto, e, no último instante do filme, vemos uma Hunter que parece genuinamente ela mesma, e genuinamente feliz (ou pronta para ser).

Na minha opinião, Swallow é um filme muito bom, que mostra como a nossa história nos faz repetir padrões (neste caso, uma gravidez indesejada), como uma família tóxica afeta a nossa auto-estima a ponto de nos perdemos na vida, que a somatização de problemas pode ser extremamente simbólica (Hunter foi de “engolir sapos” totalmente fora do controle para engolir objetos como forma de controle) e que todos podemos ter um recomeço, abandonar tudo de ruim e sermos felizes, não importa em que ponto estamos na nossa vida.

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