Remorso ou Arrependimento? E por que isso importa? O pedido de desculpas em um relacionamento abusivo

remorso

Você sabe a diferença entre remorso e arrependimento? Não se trata de palavras que são sinônimos, nem de diferença em finesse; isto é, não é o caso de uma palavra ser semelhante à outra, porém mais chique, mais refinada.

Remorso é um sentimento empático, uma tristeza por ter magoado o outro. É realmente entender o que você fez com a outra pessoa; é sofrer por ter machucado alguém. Já o arrependimento tem a ver com uma tristeza egoísta, uma tristeza relacionada à consequência que foi causada para si. Ambos os sentimentos podem gerar lágrimas, rosto vermelho e inchado, porém por motivos muito diferentes.

Vou dar um exemplo. Imagine essa cena num relacionamento:

Um rapaz deu uma cantada na amiga da namorada (vamos deixar de lado a sem-vergonhice e se você aceitaria isso ou não). A namorada ouviu, brigou e ameaçou terminar, e então ele, desesperado, pediu desculpas.

Num caso de remorso, essas desculpas têm a ver com o fato de que ele viu que o que fez foi extremamente errado, e entendeu a dor de sua namorada. Como o rapaz interiorizou a dor, ele provavelmente não cometerá o mesmo erro.

Já num caso de arrependimento, esse rapaz pede desculpas, mas foi por conta da consequência: sua namorada descobriu, e ele corre o risco de perdê-la. Sendo assim, ele pede desculpas para voltar ao status normal do relacionamento, e não porque magoou a sua parceira. Possivelmente, ele vai cantar alguém de novo (talvez com mais “cautela” numa próxima vez), porque o que o rapaz não gostou foi da consequência do ato, não do ato em si. Ele não interiorizou a dor da namorada.

Resumindo essa situação em particular: no remorso, os pensamentos são “não quero mais magoar a minha namorada” e “quero ser uma pessoa melhor para ela”, enquanto no arrependimento o pensamento é “não quero perder a minha namorada”. Nós podemos até entender que no primeiro caso, o rapaz trata a namorada como um ser com sentimentos, enquanto no segundo caso a parceira vira um “objeto”.

E aí a gente pode pensar em casos de traição em que a pessoa encontra provas ou até mesmo pega o outro no flagra: o parceiro está pedindo desculpas porque foi descoberto, ou porque realmente viu que o que fez foi errado? Se não tivesse sido descoberto, pediria desculpas? Repetiria o ato?

De qualquer forma, não estamos aqui para falar sobre traição em específico, e sim sobre relacionamentos abusivos e suas desculpas falhas e superficiais.

Pessoas abusivas têm uma dificuldade extrema para pedir desculpas. Geralmente, essas desculpas só aparecem quando a pessoa está em “risco”, quando ela não está mais no poder. Isto é, essa pessoa pode estar em risco de perder um relacionamento, um privilégio, um trabalho. O arrependimento é relacionado ao sentimento de medo, não de tristeza. Quando ela não vê risco de perda, as desculpas geralmente não aparecem, e podem até podem virar munição: “você me fez fazer isso”, “você também faz isso”, ou sua reclamação ou seu óbvio descontentamento são ignorados.

Agora, quando essa pessoa está em risco (de perder seja lá o que for), ela pede desculpas. Desculpas pelo quê? Pelo o que ela fez com você? Não. Pela consequência ou possível consequência do ato dela. Pelo medo. E aí o que acontece depois? Quando essa pessoa retoma o “poder” (isto é, quando o risco cessar), o abuso volta.

Sendo assim, vamos pensar em um relacionamento amoroso: o parceiro que é abusado chega no limite, e o abusador pede desculpas e começa a se comportar, pois o rompimento é um risco naquele momento. Alguns dias, semanas ou meses (dependendo da dinâmica do casal), o parceiro abusado se vê mais calmo, o risco de término some, e o abuso volta. Por quê? Porque eram desculpas por medo; era arrependimento. Não houve tristeza internalizada, não houve empatia com o parceiro abusado; não houve remorso.

Logo, o que temos que nos questionar é: a pessoa que está te pedindo desculpas está sentindo remorso ou arrependimento? Você consegue sentir uma tristeza genuína em relação aos seus sentimentos, ou seria uma tristeza voltada para as consequências causadas para ela mesma? Essa pessoa te pergunta como pode melhorar, ou inventa desculpas (incluindo histórias tristes) para o ato? Ela quer te ver feliz, ou quer ela mesma ficar feliz com a reparação? Ela vê o seu lado, de verdade? Se essa pessoa repete o mesmo erro várias vezes ciclicamente, o que você espera que aconteça na próxima vez que a poeira baixar? E na outra?

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