Identidade: vítima

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Todos já fomos vítimas em algum momento da vida. Até os mais sortudos do mundo já foram injustiçados alguma vez. É como a chuva: em um momento acontece. Pode acontecer mais ou menos dependendo do local (ou, nesse caso, da pessoa), mas sempre acontece.

No entanto, algumas pessoas não são vítimas em um determinado momento; elas são vítimas sempre. Autovitimização é o ato de se identificar perpetuamente com o papel de vítima, sendo uma forma de defesa e paralisação da vida. Muitas vezes, a autovitimização acontece devido a um trauma no passado, onde a pessoa era realmente incapaz de fazer algo para se salvar. Isso então se torna sua identidade, fazendo com que ela não consiga ver suas habilidades para enfrentar os desafios atuais. (Em breve falarei mais sobre isso em um post sobre desamparo aprendido, e em como podemos deixar de ver possibilidades devido à experiências no passado.)

A vítima perpétua então acaba se prendendo, pois em sua cabeça, sabe que o mundo é ruim e que ela sempre perderá, seja lá no que for. Então, tentar nem vale a pena: só criará mais dor e angústia. Melhor não tentar subir a escada, pois você sempre pode escorregar de um degrau e cair de volta no chão. Para que tentar? Melhor ficar no chão mesmo.

Esse papel não é escolhido conscientemente pela pessoa, mas lhe traz benefícios: além de não ter de tentar sair daquela posição (proteção própria contra os desafios da vida), a vítima perpétua geralmente ganha algum tipo de proteção de terceiros, seja financeira ou algum tipo de atenção (o que não deixa de ser uma proteção social). Conhecidos lhe oferecem sugestões de como lidar com o problema, mas sempre existe um “é, mas…”. Alguém próximo pode até chegar a consertar “o problema”, mas sempre há um outro logo em seguida ou a solução não foi boa o suficiente. Os outros são sempre os culpados de tudo: os parceiros são sempre abusivos e os amigos, interesseiros. Se identificou? Então se questione o seguinte:

Será que o seu parceiro é abusivo mesmo, ou será que você não vê o lado do outro?
Será que você está pedindo demais das pessoas próximas?
Será que você ganha algum tipo de poder de manipulação como vítima nas situações?
Se você sempre entra no mesmo tipo de relacionamento onde você assume um papel de vítima e pode sair, o que lhe faz ficar?
O que lhe faz repetir o mesmo papel?
(Observação: obviamente, não estamos falando de situações onde há um risco de vida caso tente sair do relacionamento. Não estamos falando de casos de polícia.)

A verdade é que todos nós somos responsáveis por pelo menos parte de nossos problemas – não todos, mas com toda certeza alguns deles nós mesmos que criamos. Sim, às vezes a vida fica difícil mesmo, e às vezes caímos e precisamos de ajuda de amigos. Todos precisamos de apoio um dia ou outro. No entanto, não podemos esquecer que toda queda ensina alguma coisa. A solução não é não tentar novamente, mas sim tentar mais uma vez, consciente (e com um aprendizado) dos erros passados. Admitir nossas falhas é algo difícil porém possível, e a terapia é um espaço onde isso pode ser trabalhado.

Para marcação de consultas (online ou presencial):
psicologapaulamonteiro@gmail.com
(21) 99742-7750

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