Amor, paixão e romance

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Já escrevi aqui sobre como nós mudamos conforme o relacionamento caminha, e como começamos a desvalorizar as pequenas coisas. No entanto, gostaria de aprofundar esse tópico, agora fazendo uma comparação entre amor, paixão e o romance.

Quando nos apaixonamos por alguém, muitas vezes dizemos que foi “amor à primeira vista”. Eu diria que foi paixão à primeira vista, e que, com sorte, virou ou poderá virar um amor.

Aquele êxtase que sentimos quando nos apaixonamos, por mais que sonhemos que com a pessoa certa será eterno, não será. Não estou falando dos sentimentos amorosos, mas sim daquela paixão forte, que derruba a gente como uma onda gigante. Essa onda, inevitavelmente irá diminuir. Pode não quebrar e sumir, mas com toda certeza diminuirá.

Aí você me pergunta: Mas por quê? Por que o romance sempre diminui com o tempo? O romance CONSUMIDO sempre diminui com o tempo porque o “barato”, aquela sensação forte que sentimos é dada pela incerteza da continuidade desse romance e pelo fato de o seu “objeto de adoração” ser ainda não completamente conhecido. Curiosamente, a única forma de manter um romance tão forte eternamente é em um amor não-correspondido, seja a pessoa próxima ou até mesmo um ídolo/celebridade.

“If only the strength of the love that people feel when it’s reciprocated could be as intense and obsessive as the love that we feel when it’s not, then marriages would be truly made in heaven” – Ben Elton

(Tradução não-literal: Se a força de um amor que as pessoas sentem quando é correspondido fosse tão intenso e obsessivo quanto um amor que sentimos quando não é, casamentos seriam perfeitos)

Infelizmente, conforme conhecemos nosso parceiro, isto é, o romance vai sendo consumado, nosso êxtase diminui. Deixamos de ver nosso parceiro como uma pessoa perfeita, idealizada, e passamos a vê-lo como uma… pessoa. Quando a “caça” cessa, e o relacionamento se torna estável, tudo muda, incluindo os hormônios. A “onda” da dopamina cede e abre espaço pra ocitocina, agora sim, o hormônio do amor. Os laços se tornam reais e não idealizados. A paixão ardente se torna um lugar seguro e confortável (quando o relacionamento é saudável, claro)… Mas infelizmente nem todos nós conseguimos ver essa mudança como algo positivo, e por motivos óbvios: além dos sentimentos de êxtase de um “amor” novo serem muito bons, a mídia retrata desde sempre paixão como amor.

Vamos voltar um pouco no tempo: No romantismo, como era retratado o “amor”? A mulher era um objeto idealizado, distante. Pense em Romeu e Julieta; o amor deles era amor adolescente, com muitas barreiras, e nunca puderam realmente viver uma vida em casal. Com toda certeza, a história seria diferente se eles tivessem se casado e a história seguisse por mais dez anos.

E nos filmes de hoje? E nas séries? O que podemos ver de “amor”? Geralmente é o encontro de duas pessoas, elas se conhecem e geralmente os filmes terminam em o quê? Em casamento, que seria a conclusão desse período de êxtase, de mistérios, surpresas, de inseguridade e de idealização. Há uma clara desvalorização e confusão sobre o tema amor. As pessoas acreditam que o êxtase durará para sempre, e que esse êxtase (ou as famosas borboletas no estômago) é o maior sinal de amor.

Então, o que acontece na vida real por causa desses exemplos tão não realistas de amor? Quando a paixão cessa e o amor de verdade, que a vida real em dois, se instala e se estabiliza, muitas pessoas acreditam que o relacionamento está morrendo, ou que até o parceiro perdeu o interesse. É nesse momento que o perigo de uma traição mais aparece, justamente porque uma pessoa nova sempre trará mais êxtase (novamente, temporário) que um parceiro atual, por ser uma pessoa não completamente conhecida, um ambiente em que o amor é proibido (adultério).

Em textos futuros falarei sobre como trazer o fator surpresa de volta ao relacionamento. Mas isso não é a cura para a idealização do amor, é apenas uma ajuda dar uma sacudida na “rotina”. A cura é ver que por mais que o romance e a paixão sejam maravilhosos, eles são efêmeros, e que se você estiver com a pessoa certa, o amor verdadeiro é muito bom também, e duradouro.

Paula Monteiro
Psicóloga clínica
psicologapaulamonteiro @ gmail.com
(21) 99742-7750

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